08 de julho de 2026
Bairros

Relação com os moradores é de troca

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

A relação entre os estudantes “estrangeiros” e os moradores de Bauru vem se modificando com o passar dos anos. Ao mesmo tempo em que são mais aceitos pela população, os universitários também têm mudado a sua postura em relação à cidade. “Hoje aquela imagem de ‘festeiros’ que eles tinham ficou para trás”, acredita a estudiosa Lúcia Helena Sant’Agos-tino, que lecionou na Universidade Estadual Paulista (Unesp) até 1999.

Há cerca de oito anos, ela fez o projeto de mestrado sobre a condição de Bauru ser um “chão-de-passagem”, ou seja, uma terra na qual as pessoas chegam, trabalham ou estudam, e vão embora. Anos depois, a professora fez doutorado e estudou um outro aspecto da vida de Bauru, que mostrou que a cidade deixou de lado essa sua característica e está abrigando os “forasteiros”, criando vínculos com as pessoas que por aqui chegam.

Lúcia Helena destaca que a postura dos moradores de Bauru começou a mudar com relação aos estudantes quando eles perceberam o filão econômico que esse nicho de mercado representa. “Com a ‘fuga’ de profissionais que trabalhavam em companhias energéticas e ferroviária, a cidade perdeu muita fonte de renda. Foi preciso descobrir um outro mercado para investir”, explica a professora.

Ela salienta que nem foi preciso criar uma nova fonte, pois ela já existia. “Os estudantes sempre estiveram aqui, mas não eram notados por aquele modelo econômico”, destaca.

Segundo Lúcia Helena, o que também contribuiu para essa reviravolta foi a mudança de comportamento dos estudantes. Os antes “festeiros” universitários começaram a buscar novas maneiras de diversão. “As festas hoje dificilmente são realizadas nas repúblicas - mesmo porque elas estão em número bem reduzido. Dessa forma, acabou o barulho das comemorações e os moradores já não têm mais tanto problema com relação a isso”, atesta a professsora.

Esse comportamento pode ser observado no condomínio Parque das Camélias, conhecido reduto de estudantes da cidade. Localizado no caminho de acesso à Unesp, o conjunto de prédios abriga uma grande quantidade de universitários.

De acordo com o síndico do condomínio, Marco Aurélio Uchida, não há nenhuma reclamação com relação a esse tipo de morador. “Pelo contrário, a gente percebe que todos se dão bem com os estudantes, que são considerados alegres e bons vizinhos”, esclarece.

Ele diz, inclusive, que um dos blocos do residencial costuma sempre realizar reuniões festivas às sextas-feiras. “Os moradores fazem questão da presença dos estudantes, pois eles animam a festa e são muito bem-vindos”, destaca.

Para Uchida, de tanto carregarem o estigma de “bagunceiros” os universitários estão procurando mostrar uma outra imagem para a população de Bauru. “Acredito que eles estão querendo derrubar esse rótulo”, frisa o síndico.

Repúblicas

Símbolos de toda uma geração de universitários “estrangeiros”, as repúblicas aos poucos vão cedendo lugar à individualidade e ao conforto dos apart-hotéis, das kitnetes e dos apartamentos. Mesmo assim, as casas habitadas por grupo de estudantes ainda têm adeptos em Bauru.

Além de serem uma opção mais em conta, já que o aluguel é dividido por uma quantidade maior de pessoas, as repúblicas possuem a vantagem de ser ambientes mais despojados e cheios de vida.

A estudante Andréa Kulpas, que faz o curso de Desenho Industrial na Unesp, trocou o sossego de um apartamento pelo agito da república.

Há nove meses, ela divide espaço com outras quatro pessoas e está adorando a nova moradia. â€œÉ muito mais divertido e barato”, afirma.

Ela conta que divergências existem, mas é preciso saber compreender o ponto de vista da outra pessoa para que haja entendimento. “Nós moramos em uma república mista - formada por homens e mulheres - e é preciso saber conviver”, destaca.

A casa onde eles moram fica na região central da cidade e o que mais chama a atenção dos estudantes é a da idade do imóvel. “Tem 42 anos de história”, frisa Andréa.

Outra vantagem é que a residência está localizada em um ponto de fácil acesso, ou seja, com ônibus para ir à faculdade e às festas.

Veterano de tantas repúblicas, o estudante de Relações Públicas da Unesp Eduardo Rodrigues Caldas conta que o modelo de moradia está testado e aprovado por ele. “Já morei em sete repúblicas diferentes desde que estou em Bauru”, destaca.

Ele diz que o comportamento dos vizinhos em relação à casa dos estudantes tem mudado gradualmente. “Nas primeiras repúblicas que morei, havia muita resistência por parte da vizinhança, que não aceitava o nosso modo de vida”, salienta.

Hoje, ele diz que está mais tranqüilo. Mesmo assim, vez ou outra os estudantes precisam enfrentar os comentários dos outros moradores. “Eles reclamam do barulho, mesmo que a gente não faça muita festa. Basta um churrasquinho para despertar os comentários dos vizinhos”, diz.

Com relação à festas, Andréa sentiu recentemente o peso desse tipo de reclamação. “Os vizinhos fizeram um BO (boletim de ocorrência) por causa de uma festa que demos”, explica.

Ela diz que o som foi o que motivou a atitude dos vizinhos. “Tinha uma banda tocando em casa e eles não gostaram do som alto”, comenta.