A relação entre os estudantes “estrangeiros†e os moradores de Bauru vem se modificando com o passar dos anos. Ao mesmo tempo em que são mais aceitos pela população, os universitários também têm mudado a sua postura em relação à cidade. “Hoje aquela imagem de ‘festeiros’ que eles tinham ficou para trásâ€, acredita a estudiosa Lúcia Helena Sant’Agos-tino, que lecionou na Universidade Estadual Paulista (Unesp) até 1999.
Há cerca de oito anos, ela fez o projeto de mestrado sobre a condição de Bauru ser um “chão-de-passagemâ€, ou seja, uma terra na qual as pessoas chegam, trabalham ou estudam, e vão embora. Anos depois, a professora fez doutorado e estudou um outro aspecto da vida de Bauru, que mostrou que a cidade deixou de lado essa sua característica e está abrigando os “forasteirosâ€, criando vínculos com as pessoas que por aqui chegam.
Lúcia Helena destaca que a postura dos moradores de Bauru começou a mudar com relação aos estudantes quando eles perceberam o filão econômico que esse nicho de mercado representa. “Com a ‘fuga’ de profissionais que trabalhavam em companhias energéticas e ferroviária, a cidade perdeu muita fonte de renda. Foi preciso descobrir um outro mercado para investirâ€, explica a professora.
Ela salienta que nem foi preciso criar uma nova fonte, pois ela já existia. “Os estudantes sempre estiveram aqui, mas não eram notados por aquele modelo econômicoâ€, destaca.
Segundo Lúcia Helena, o que também contribuiu para essa reviravolta foi a mudança de comportamento dos estudantes. Os antes “festeiros†universitários começaram a buscar novas maneiras de diversão. “As festas hoje dificilmente são realizadas nas repúblicas - mesmo porque elas estão em número bem reduzido. Dessa forma, acabou o barulho das comemorações e os moradores já não têm mais tanto problema com relação a issoâ€, atesta a professsora.
Esse comportamento pode ser observado no condomínio Parque das Camélias, conhecido reduto de estudantes da cidade. Localizado no caminho de acesso à Unesp, o conjunto de prédios abriga uma grande quantidade de universitários.
De acordo com o síndico do condomínio, Marco Aurélio Uchida, não há nenhuma reclamação com relação a esse tipo de morador. “Pelo contrário, a gente percebe que todos se dão bem com os estudantes, que são considerados alegres e bons vizinhosâ€, esclarece.
Ele diz, inclusive, que um dos blocos do residencial costuma sempre realizar reuniões festivas às sextas-feiras. “Os moradores fazem questão da presença dos estudantes, pois eles animam a festa e são muito bem-vindosâ€, destaca.
Para Uchida, de tanto carregarem o estigma de “bagunceiros†os universitários estão procurando mostrar uma outra imagem para a população de Bauru. “Acredito que eles estão querendo derrubar esse rótuloâ€, frisa o síndico.
Repúblicas
Símbolos de toda uma geração de universitários “estrangeirosâ€, as repúblicas aos poucos vão cedendo lugar à individualidade e ao conforto dos apart-hotéis, das kitnetes e dos apartamentos. Mesmo assim, as casas habitadas por grupo de estudantes ainda têm adeptos em Bauru.
Além de serem uma opção mais em conta, já que o aluguel é dividido por uma quantidade maior de pessoas, as repúblicas possuem a vantagem de ser ambientes mais despojados e cheios de vida.
A estudante Andréa Kulpas, que faz o curso de Desenho Industrial na Unesp, trocou o sossego de um apartamento pelo agito da república.
Há nove meses, ela divide espaço com outras quatro pessoas e está adorando a nova moradia. â€œÉ muito mais divertido e baratoâ€, afirma.
Ela conta que divergências existem, mas é preciso saber compreender o ponto de vista da outra pessoa para que haja entendimento. “Nós moramos em uma república mista - formada por homens e mulheres - e é preciso saber conviverâ€, destaca.
A casa onde eles moram fica na região central da cidade e o que mais chama a atenção dos estudantes é a da idade do imóvel. “Tem 42 anos de históriaâ€, frisa Andréa.
Outra vantagem é que a residência está localizada em um ponto de fácil acesso, ou seja, com ônibus para ir à faculdade e às festas.
Veterano de tantas repúblicas, o estudante de Relações Públicas da Unesp Eduardo Rodrigues Caldas conta que o modelo de moradia está testado e aprovado por ele. “Já morei em sete repúblicas diferentes desde que estou em Bauruâ€, destaca.
Ele diz que o comportamento dos vizinhos em relação à casa dos estudantes tem mudado gradualmente. “Nas primeiras repúblicas que morei, havia muita resistência por parte da vizinhança, que não aceitava o nosso modo de vidaâ€, salienta.
Hoje, ele diz que está mais tranqüilo. Mesmo assim, vez ou outra os estudantes precisam enfrentar os comentários dos outros moradores. “Eles reclamam do barulho, mesmo que a gente não faça muita festa. Basta um churrasquinho para despertar os comentários dos vizinhosâ€, diz.
Com relação à festas, Andréa sentiu recentemente o peso desse tipo de reclamação. “Os vizinhos fizeram um BO (boletim de ocorrência) por causa de uma festa que demosâ€, explica.
Ela diz que o som foi o que motivou a atitude dos vizinhos. “Tinha uma banda tocando em casa e eles não gostaram do som altoâ€, comenta.