07 de julho de 2026
Ser

A festeira

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Para a família ela é Leninha, para o resto do mundo ela é a Helena do Capristor. Mas o que poucos sabem é que essa festeira assumida chama-se Maria Ferreira Rodrigues. Filha de analfabetos, ela seria batizada de acordo com um sucesso da época “Um dia Maria Helena triste morreu...”, conta cantarolando e só descobriu a ausência de Helena quando foi para a escola. “Chorei muito, mas fiquei Helena para o resto da vida.”

Aos 56 anos, a devota de Santa Filomena, “que foi uma guerreira como Joana D’Arc, só que não morreu queimada”, a discípula de Paulo Medina trabalha há 25 anos como maitre de um dos buffets mais tradicionais de Bauru.

Com exigência, elegância e animação, Helena conta sua trajetória de vida num universo de festa toda santa semana.

Jornal da Cidade – A senhora é a festeira ou a casamenteira? Maria Ferreira Rodrigues, a Helena do Capristor – Olha, eu gosto de festa. Não importa que tipo de festa. Procuro fazer o meu serviço da melhor maneira possível. Afinal, eu faço o que eu gosto. Faço tudo o que você possa imaginar na organização da festa. Do começo ao fim eu estou lá.

JC – Numa festa de casamento, qual é a rotina de um maitre? Helena – Você tem que chegar bem antes para limpar material, orientar garçons, organizar tudo para quando os convidados chegarem estar tudo bonitinho. Depois, quando os convidados chegam para o casamento é preciso fazer parte do cerimonial. Ajudar a noiva entrar, porque noiva é a primeira vez que casa então não sabe onde precisa ficar, o que vai fazer.

JC – Então a senhora é a fada madrinha? Helena – Pode ser, né? Pois se você é a noiva você sabe aonde vai ficar? Onde é a mesa do civil? Tudo isso. Eu pego o seu buquê, coloco direitinho sobre a mesa. Ajeito os padrinhos cada um no seu lugar. É uma jogada que precisa ser organizada.

JC – Já aconteceu alguma coisa muito engraçada. Uma noiva desmaiou, descosturou o vestido de uma madrinha? Helena – Nunca. Nunca uma noiva desmaiou. Nesses tantos anos, nunca uma noiva falou que não iria se casar mais, a festa não aconteceu...

JC – Nem o noivo nunca aprontou nada? Helena – Nem o noivo (risos).

JC – Mas já teve aquela festa que deu o maior trabalho, não? Helena – Trabalho, trabalho todas dão. Só que tem aquelas festas que são mais maleáveis. A dona da festa confia mais e deixa por conta da gente.

JC – A senhora também deve ter feito festas para várias gerações de uma mesma família? Helena – Eu fiz no mês passado em Lins, a festa de casamento de uma moça, que tinha feito a festa de 15 anos. Também há 19 anos fiz a festa de casamento de uma moça, no ano seguinte fiz o casamento da irmã e tempos depois fiz as bodas de ouro dos pais.

JC – Quer dizer que a senhora já faz parte das famílias? Helena – Faço sim. Tem pessoas que fazem questão de me ter em suas festas. E ainda brincam que a gente só se encontra em festa.

JC – Mas quem ensinou a senhora a ser maitre? Helena – O meu professor é o Paulo Medina. Ele me deu uma boa escola. Se não fosse ele me ensinar o que ele tem de bom, a gostar das coisas com muita perfeição e exigência, como ele gosta, não estaria aqui conversando com você.

JC – Além do salão de festas do Capristor, tem algum lugar que a senhora gostou muito de ter comandado uma festa? Helena – Faz pouco tempo eu estive na estância do cantor Daniel, que é um lugar maravilhoso.

JC – Nesta vida de festas, quantos famosos a senhora já atendeu? Helena – Muitos. De Maluf a Sócrates. A Xuxa. O presidente Médici, que para servir é exigido crachá e tudo o que lhe é servido um assessor tem que comer para depois dar para ele. Já servi muita gente de bons nomes. O Maluf já servi várias vezes.

JC – Teve algum que a senhora se comoveu em servir, um ídolo por exemplo? Helena – Eu não sou muito chegada nessas coisas. Tanto é que garçom é só chegar um famoso para vir correndo pedir autógrafo. Eu brigo com eles por causa disso (cai na gargalhada). Mas confesso que fico feliz quando vejo o Azenha (Luiz Carlos) fazendo reportagens internacionais na tevê. Digo sempre: onde foi parar o meu menino! Quando ele era mais novo e trabalhava no JC, muitas vezes ele me alfinetava na sua coluna, porque antes de trabalhar no buffet, eu trabalhei na Luso e no BTC controlando as piscinas e ajudando nas festas e no Carnaval e não deixava ninguém entrar sem carteirinha. Eu respondia: “Estou aqui para quê?” (risos)

JC – A senhora chegou a fazer festa na Casa da Eny? Helena – No bordel não. Mas eu fiz festa na casa dela. Fiz uma festa de casamento de uma sobrinha, que não sei se era de verdade ou daquelas que ela adotava. Eny era requintadíssima, mas era aquele tipo de pessoa que confiava muito e deixava tudo, tudo por nossa conta.

JC – E coisas estranhas já foram pedidas pelos festeiros? Helena – Conhaque. Para o Buffet Capristor é muito esquisito ter conhaque no cardápio. Agora, já precisei mandar buscar queijos para um convidado de regime que não podia degustar o cardápio.

JC – Mas as decorações geralmente pedem uma certa dose de extravagância? Helena – Antigamente tinha umas festas...

JC – Mudou muito o perfil das festas nestas duas décadas e meia de trabalho? Helena – Hoje em dia tem menos festa. Antigamente, as decorações eram deslumbrantes, hoje são mais light. Não sei se sou eu que estou mais exigente, porque o Paulo me fez ficar assim. Mas há algum tempo para se servir camarão e lagosta ou um faisão era daqui para ali. Hoje não. As festas se limitam ao casamento. Quinze anos é muito difícil e já fiz uma mais linda que a outra. Agora, a febre em festa é formatura, essa moçada curte.

JC – Por falar em curtir, como são as festas da sua família? Helena – (Risos) Eu não quero nem saber. Não tenho flor em casa, salgadinho nem pensar. Quando querem fazer festa em casa convido para assar uma carne e pronto! Em casa de ferreiro é espeto de pau mesmo. Mas na hora H, tenho que fazer a maionese. E eu não gosto, eu detesto cozinhar. Mas o meu paladar é bem aguçado e quando estou numa festa é um minuto para devolver uma bandeja de salgados que não estão quentinhos.

JC – Garçom com gravata torta... Helena – Arrumo, dou bronca quando a camisa não está branca ou o zíper está mal fechado. Não tenho papa na língua. Faço as meninas viajarem de camiseta. Peço resgate se alguém passa mal. Eu tenho que ver tudo e sou exigente.

JC – No vocabulário da senhora o que é aproveitar uma festa? Helena – Eu? Aproveitar uma festa? Eu aproveitar uma festa nesta história toda é quando ela roda bonitinha, redondinha até o final. Aí está tudo certo. Eu venho embora contente.