08 de julho de 2026
Articulistas

A Agenda perdida


| Tempo de leitura: 3 min

Entrevero nas hostes petistas! O ministro Palocci dá pito em deputado petista boquirroto. O senador Aloizio Mercadante faz média com os pares, como sempre, para acalmar os ânimos. O presidente do PT, Genoíno, ameaça os radicais e fala, despudoradamente, em descabidas punições. A senadora Heloísa Helena posa de Joana D’Arc, salvadora da pátria radical petista. Cenas de início de governo. Ninguém tem dúvidas, desde a vitória, que a pedra no sapato do presidente Lula seriam seus ideólogos de esquerda e seus militantes, cabeças de vento, radicais.

Os motivos são por demais óbvios: os moderados do partido sepultaram na marra, durante o pleito, idéias e compromissos discutidos e aprovados durante anos e anos em debates e reuniões do PT. Não há prazer maior entre petistas radicais que a defesa de idéias e propostas utópicas. O grupo político dominante do PT resolveu remendar o pensamento do partido sem os tradicionais e cansativos debates internos. Nem se preocuparam em revogar as teses tradicionais. A data da conversão ao novo ideário foi junho de 2002. Após um mês de discussão na cúpula, segundo depoimento de Palocci, na Roda Viva, publicou-se a “Carta ao Povo Brasileiro”. No documento síntese do programa do PT, a promessa explícita de um período de “transição para o novo modelo” foi redigida na tentativa de enxugar a baba dos radicais.

Em setembro de 2002, José Alexandre Scheinkman, Professor da Universidade de Princeton, com a coordenação de Marcos Lisboa, professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, comandou um grupo de 17 economistas e cientistas sociais para elaborar propostas que “permitam ao Brasil retomar o crescimento sustentado e, ao mesmo tempo, reduzir suas enormes desigualdades sociais”. Todos concordaram em preparar um documento que fosse apartidário. Seria entregue a todos os candidatos. Scheinkman tinha sido acionado por Ciro Gomes, antes de sua candidatura desabar nas pesquisas.

Este documento ficou conhecido, na imprensa, como a Agenda Perdida. Propostas de mudanças em regras tributárias, trabalhistas e de crédito são os pontos centrais da Agenda. Contém idéias como a proposta de substituição progressiva dos impostos indiretos por um tributo sobre o valor agregado. Prevê a isenção de impostos indiretos aos produtos exportados. Propõe o deslocamento da negociação trabalhista da Justiça do Trabalho para as empresas e os sindicatos. Sugere uma política tarifária visando o aumento da corrente de comércio. Quer o reforço da política pública de ciência e tecnologia. Quer a reforma da lei de falências e do mercado de crédito em geral, fortalecendo a garantia dos credores e o seu poder sobre empresas quebradas. Sugere, ainda, a extensão da bolsa escola para adolescentes, maior coordenação e coordenação das políticas sociais para atingir a população mais pobre e maior punição aos crimes com ameaça de vida.

O ministro Palocci recebeu e se interessou pela Agenda Perdida. Marcos Lisboa foi nomeado Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Considerado prodígio no meio acadêmico, pesquisador incansável de termas como saúde, crime, imperfeições do mercado e política industrial. Mescla temas econômicos e sociais, usando arsenal teórico de alta sofisticação. O Brasil caminha por sendas bem trilhadas e balizadas. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras de Ciências Humanas da USP)