O governo Lula dobrou sua aposta na política econômica do ministro Palocci quando decidiu cortar R$ 14 bilhões do orçamento para 2003, aprovado pelo Congresso no ano passado. Alguns dos ministérios mais importantes na tarefa de levar adiante as promessas de campanha de Lula - Integração Nacional e Grandes Cidades - tiveram cortados mais de dois terços de seus recursos. Com isto, os ministros Ciro Gomes e Olívio Dutra terão dinheiro apenas para manter o dia-a-dia de suas atividades sem poder iniciar nenhum projeto. Mesmo os programas sociais mais caros ao nosso presidente, como o Fome Zero, sofreram com a tesoura implacável do ministro da Fazenda.
O mal-estar que esta decisão está causando nas hostes petistas e na população em geral é o preço que o governo resolveu pagar para tentar, via estrada da ortodoxia, estabilizar a economia ainda em 2003. Só depois disto, se possível no início do segundo ano de seu mandato, Lula pensa em governar de fato. Foi o próprio presidente que sinalizou esta expectativa quando usou a imagem de uma gravidez de nove meses para nascer o real governo do PT. A aposta está feita e agora é torcer para que o sonho do Consenso de Washington, agora em sua versão rosa da estrela do PT, possa ser realizado.
Os estrategistas do Ministério da Fazenda contam com uma reforma abrangente e radical da Previdência como sua principal arma para, junto com a austeridade fiscal e os juros elevados, convencer os investidores internacionais a voltarem a investir em papéis brasileiros. Com o fluxo internacional de recursos normalizado, o Banco Central poderia soltar um pouco o torniquete dos juros que mantém a economia em recessão. O crescimento econômico voltaria e, novamente, o ciclo virtuoso há muito perdido daria a Lula condições políticas de recuperar a confiança de seus eleitores.
No cálculo frio do comando petista será necessário fazer a travessia do deserto durante os próximos meses, contando apenas com o cantil do apoio popular, hoje cheio até a borda. Lula e seus companheiros sabem que para isto vão gastar boa parte do capital político de hoje e contam com os movimentos sociais controlados pelo partido para reduzir o impacto negativo que a estagflação, que vai ser a marca do ano que em vivemos, deve produzir. MST, CUT e o próprio PT deverão cobrir a retaguarda do presidente nestes tempos difíceis que o governo vai viver.
Enquanto isto, seus generais mais importantes vão jogar todas as suas forças na tentativa de aprovar no Congresso uma reforma da Previdência que consiga dar maior credibilidade no equilíbrio fiscal do setor público. Uma das derrotas mais importantes de FHC e para a qual o próprio PT foi elemento fundamental, a contenção da escalada do déficit previdenciário, pode ser o elemento necessário para consolidar um imagem mais positiva do Brasil no mundo econômico internacional. Pelo menos esta é a grande aposta que Palocci vendeu ao comando do governo.
Particularmente, eu não acredito que esta reforma sozinha consiga o milagre de estabilizar o setor externo de nossa economia. Sem tratar do desequilíbrio estrutural de nossas contas externas, ficaremos sempre ao sabor dos humores, sempre tão voláteis e fúteis, dos mercados internacionais. A cotação do dólar em relação ao real continuará a flutuar de maneira incontrolável, obrigando o Banco Central a promover choques periódicos de juros. Com isto, a necessária estabilidade para que as empresas possam decidir sobre seus investimentos não virá e continuaremos com as políticas de tipo stop and go.
Se eu estiver certo, a atual gravidez a que se referiu o presidente Lula pode estender-se por mais tempo, fazendo com que a travessia do deserto acabe em um desastre por falta de água no cantil! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)