10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Os flamboyants de Therezinha Bijos


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Faz pouco tempo, minha amiga Therezinha Bijos e eu fizemos uma pequena viagem para não muito longe de Bauru. Ela queria conferir o que acontecera com os punhados de sementes de flamboyant que jogara pela janela do carro, ao longo de certa estradinha, 30 anos atrás. Sempre quisera fazer isso, mas somente agora se decidira. Como era época de florada da bela árvore, seria uma boa ocasião para descobrir se alguma daquelas sementes vingara durante os longos anos passados desde a semeadura.

Rodamos por algum tempo pela estrada principal sem ver nenhum flamboyant em flor, caracterizando que a árvore não era costumeira naquela região. Tão logo, porém, entramos na pequena estrada secundária, surgiu-nos a visão do enorme flamboyant, velho e nodoso, debruçado à beira do caminho, com uma labareda de flores crepitando pela copa frondosa. Parecia um milagre que as intempéries ou as máquinas do progresso conservando a estrada não tivessem impedido a árvore de viver.

A partir dali, encontramos não só alguns flamboyants perto da estrada, menores que o primeiro, bem como outros vicejando ao longe, dentro das chácaras e sítios, mostrando que das árvores nascidas pela mão de Therezinha haviam sido levadas muitas sementes, espalhando a espécie por toda a parte, colorindo a paisagem e encantando a vista.

Hoje, pouco depois de me despedir de minha amada amiga que partiu para outra dimensão, vejo que aquela rota de flamboyants é, na verdade, o símbolo da vida de Therezinha Bijos na Terra. As sementes de sua extrema bondade foram sendo jogadas a esmo sobre todos nós que convivemos com ela, pois que nunca escolheu a quem dar o seu apoio e o seu amparo. Filhos, netos, parentes, amigos, clientes ou funcionários, eramos todos igualmente importantes para ela. Nem era preciso pedir: bastava que ela detectasse alguma necessidade que já se punha em campo para nos suprí-la.

No dia triste em que lhe prestamos nossas últimas homenagens, podia-se notar naquela multidão compungida, que não havia uma pessoa sequer que ali estivesse por mera obrigação social. Cada um tinha sempre algo a vir agradecer-lhe e as lágrimas de saudade eram legítimas. Acostumados à sua constante solidariedade, agora tardamos a entender a vida sem a presença dela, pois que levou consigo uma parte de nós.

Adeus, amiga. Você, que brilhou profissionalmente; que construiu uma família unida e feliz; que distribuiu seu carinho por todos os que tiveram a benção de conhecê-la, vá em paz e na luz divina que conquistou com seus méritos. Seu exemplo, como as sementes de flamboyant que espalhou, continuará frutificando pelas gerações e sua memória nunca se apagará de nossas vidas, como a copa florida daquela árvore que resistiu a tudo para poder perpetuar a lembrança de você. (Vania Figueiredo - Cadeira nº 24- Academia Bauruense de Letras)