10 de julho de 2026
Articulistas

Uma no cravo, outra na ferradura


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Fica cada dia mais claro que a ambigüidade será a característica do primeiro ano do governo Lula. Decidido manter a política econômica do ministro Pedro Malan, não restou ao PT outra alternativa se não criar factóides constantes para compensar as “maldades” do ministro Palocci.

Por exemplo, no mesmo encontro em que o ministério decidiu cortar a fundo o orçamento fiscal deste ano, foram aprovadas 14 medidas de pretenso alcance social. A mensagem era clara: mostrar o governo preocupado com os efeitos dos cortes sobre os brasileiros mais pobres. Apesar da pompa e circunstância da reunião, a tentativa caiu no ridículo pela desproporção evidente entre a gravidade da redução das verbas dos ministérios e a limitada extensão das medidas compensatórias.

Agora, quando pela segunda vez em menos de 60 dias o governo decide elevar os juros da economia e reduzir a capacidade de empréstimos dos bancos via aumento dos compulsórios, Lula ensaia um novo factóide: ordena ao BB, à Caixa Econômica e ao BNDES que abram seus cofres para as micro-empresas e pequenos agricultores. Escaldado pelo vexame anterior, desta vez pelo menos não houve pompa e circunstância no anúncio destas medidas.

Mas fica muito claro, mais uma vez, a desproporção entre a maldade cometida pelo Copom e a bondade anunciada pelo presidente. Os efeitos das decisões monetárias tomadas na última quarta-feira sobre a economia atingirão duramente milhões de brasileiros, pela via de menos emprego e queda dos salários; já os empréstimos dos bancos públicos estarão restritos a alguns milhares de pessoas.

Não se questiona aqui a necessidade de medidas ortodoxas na economia para enfrentar os efeitos de uma crise externa herdada do governo passado e de sua irmã siamesa, a volta da inflação. O governo não tem outra solução. O problema real está na tentativa de encobrir a contradição entre este caminho adotado e o discurso eleitoral demagógico da campanha eleitoral. Quando o governo de FHC aumentou os juros em novembro e dezembro passados, Lula e seus partidários diziam que eram medidas erradas, recessivas e que apenas serviam para engordar os lucros de banqueiros e especuladores.

Já os aumentos de juros em janeiro e fevereiro visam apenas proteger os salários dos trabalhadores. A opinião pública não pode ser enganada desta forma. As pessoas, mesmo as mais humildes, têm capacidade de entendimento suficientes para perceber o engodo. Como, no espaço de poucos meses, uma mesma medida - a alta dos juros - pode passar de diabólica a virtuosa? Este mesmo comportamento ocorre no caso da reforma da Previdência. Os funcionários públicos passaram de vítimas do achatamento salarial no governo FHC para vilões do sistema de Previdência, ameaçando inclusive o pagamento das magras aposentadorias dos trabalhadores privados,

A continuidade desta ambigüidade entre passado e presente, se mantida sem um esclarecimento muito claro, vai manter o governo sob intensa pressão. Já se pode sentir isto no ar de Brasília com apenas dois meses de poder. Imaginem daqui a seis ou oito meses! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)