09 de julho de 2026
Geral

Pesquisadora critica campanha com Kelly Key

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

A pesquisadora de campanhas de prevenção à aids Sonia Aparecida Cabestré, professora-doutora da Universidade do Sagrado Coração (USC), é contrária a escolha da cantora Kelly Key como protagonista da propaganda de prevenção à doença, que começou a ser veiculada na última semana nos meios de comunicação pelo Ministério da Saúde.

Cabestré acredita que, apesar da fama, a cantora não tem credibilidade para abordar questões como a prevenção da aids. “A Kelly Key é muito mais um símbolo sexual do que uma personagem que passa credibilidade sobre um tema sério como a aids. Ela não é um modelo adequado para estar discutindo a questão da prevenção da doença”, afirma.

A pesquisadora acredita que a figura de Kelly Key pode induzir os jovens muito mais a uma atitude de liberdade sexual desregrada, do que provocar uma reflexão sobre a prática do sexo seguro. “Eu acho que ela trata as coisas sempre de uma maneira muito superficial e fútil. Ela, enquanto cantora, não passa conteúdo nas músicas, como é que ela vai passar um conceito, vai trabalhar essa questão de prevenção?”, questiona.

Cabestré afirma que o protagonista de uma campanha dessa natureza deve ser um personagem que transmita conceitos sólidos, de credibilidade, seriedade e comprometimento com a qualidade de vida. Segundo a pesquisadora, existem profissionais, especialmente no mundo do esporte, que possuem uma identificação com o público jovem e que correspondem a essa expectativa, como o caso do tenista Gustavo Kuerten.

No universo feminino, a pesquisadora confessa não saber apontar atualmente um modelo que atenda a esse propósito e acredita que os jovens estão carentes de grandes ídolos.

Para a pesquisadora, a idéia da propaganda deste ano não apresenta preocupação com a conscientização e o amadurecimento da educação sexual. “Usando a Kelly Key o que está se divulgando é a questão do sexo pelo sexo. Eu não sou moralista, mas ela passa uma imagem volúvel e superficial”, afirma.

Apesar da ressonância da campanha, a pesquisadora defende que a polêmica gerada em torno da figura da cantora tem desviado o foco central da discussão, que é a questão da prevenção da doença. Para ela, os jovens vão discutir a participação da Kelly Key na propaganda, mas não será priorizada a mudança de comportamento em relação ao uso de preservativos.

“Eu vejo que mais uma vez desvia-se a questão da discussão da prevenção da aids e a polêmica toda está sendo direcionada para a participação da personagem chamada Kelly Key. A gente percebe que o Ministério da Saúde continua traçando as questões da aids, não como parte de um processo educativo”, afirma

Esse ano, a campanha foi direcionada para as adolescentes - grupo etário onde a doença cresceu nos últimos anos, segundo a pesquisadora.

A cantora teria sido escolhida pelo Ministério da Saúde por possuir grande número de fãs entre as adolescentes das classes C e D. Outra idéia da campanha é explorar a postura de Kelly Key como uma jovem que tem opinião forte e que faz valer sua vontade.

Contínua e plural

A pesquisadora defende a importância de campanhas de prevenção à aids que considerem a pluralidade e as diferenças culturais das regiões do País. “Deve-se levar em conta os diferentes ‘brasis’ que compõem o nosso imenso Brasil. As linguagens deveriam ser mais direcionadas ao repertório regionalizado que nós temos”, defende.

Além disso, Cabestré acredita que as campanhas não devem ser realizadas sazonalmente, como se o risco da aids apenas estivesse presente durante certos períodos do ano, à exemplo do Carnaval. Para ela, o processo de conscientização deve ser contínuo e profundo. “Eu vejo que deveria haver um esforço do Ministério da Saúde em tratar a temática da aids, produzindo campanhas que tenham um caráter educativo. Atualmente, elas tem um caráter imediatista e a mensagem é muito fulgás, porque não existe a produção de outras discussões. A campanha do jeito que está não cria condições de sedimentar uma discussão mais profunda sobre a temática”, observa.

Para a pesquisadora, é fundamental que se divulgue a importância do produto camisinha, mas somando a isso o conceito de prevenção, sexo seguro e qualidade de vida. “A gente não deve só passar a informação, mas saber como ela será recebida, assimilada e de que maneira as pessoas vão estar modificando ou não suas atitudes, seus conceitos em relação à aids”, completa.

Segundo a pesquisadora, os jovens ainda têm bastante dificuldade de discutir questões referentes à doença. “Os jovens não gostam de discutir sobre a aids, porque no fundo existe ainda uma associação da aids com a morte. Só a campanha em si, do jeito que está, sem um complemento ou uma discussão bem orientada, eu não acredito que terá efeitos positivos”, afirma.

Pesquisa

Durante o desenvolvimento de seu projeto de doutorado sobre campanhas de prevenção à aids, nos anos de 1999 a 2000, Cabestré entrevistou cerca de 400 jovens, de escolas públicas e particulares.

Segundo ela, na oportunidade, os jovens se posicionaram de maneira madura sobre suas expectativas em relação às campanhas de prevenção. “Eles disseram que esperam que se discuta o tema de forma mais profunda, afirmando que a escola e a família exercem um papel muito importante nesse processo”, completa.

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ONGs criticaram escolha

Depois de ser escolhida protagonista da campanha do governo federal, a cantora Kelly Key foi alvo de Organizações Não-Governamentais (Ongs) de 15 Estados. Os ativistas reclamaram da escolha justificando que a cantora não teria identificação com os jovens de todo o País. Além disso, alegaram que as músicas de Kelly Key e sua postura seriam associadas ao “desrespeito às relações amorosas e sexuais”.

Segundo a pesquisadora Sônia Cabestré, o Ministério da Saúde deveria ter consultado as Ongs antes de decidir pela figura da cantora. “Eles desenvolvem um trabalho muito sério, comprometido com as questões da aids e deveriam ser ouvidos”, afirma.

Apesar dos protestos, a campanha com a cantora entrou no ar há uma semana. Na propaganda na TV, Kelly Key aparece em uma farmácia procurando algo pelas prateleiras, enquanto dois atendentes especulam sobre o que ela deveria comprar. Para a surpresa de ambos, ela pergunta onde ficam as camisinhas.