11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Famílias cortam gastos, lazer e conforto

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

A realidade é dura e, os sacrifícios por parte de pessoas com as mais diversas rendas e profissões, têm sido grandes. As irmãs Sônia Mara e Márcia Aparecida de Mello Freitas, 49 e 50 anos, dispensaram a empregada doméstica - que consumia R$ 450,00 por mês - e cortaram, até mesmo, as “mordomias” que o casal de cães da raça pastor alemão tinha. Agora só eles comem e nada mais de brinquedinhos, diz Sônia.

Vivendo do aluguel de alguns imóveis deixados pelo pai, as irmãs estão sofrendo com a retração do mercado. Sem muitos inquilinos, atualmente a renda delas está girando em torno de R$ 900,00.

A limpeza da piscina da casa onde moram, que uma pessoa fazia três vezes por semana ao custo de R$ 100,00, caiu para uma vez a cada semana, por R$ 30,00.

“Desde o ano passado estamos cortando tudo, para todas as situações. Só consumimos itens extremamente necessários. Até no nosso lazer estamos fazendo cortes. Os passeios têm sido cada vez mais raros, assim como s viagens que costumávamos fazer. No ano passado, viajamos apenas uma vez, para visitar familiares. E mesmo assim foi para perto, em Lençóis Paulista”, conta Sônia.

Como elas não têm rendimentos fixos, todos os meses a prioridade é para pagar as contas, como de luz, água e telefone. No supermercado, a lista de compras foi bastante reduzida e não fazem mais a “compra do mês”, que sai muito caro.

“Nós compramos sempre em pequenas quantidades e, antes de sair de casa, sempre verifico as promoções para comprar os produtos mais baratos. Mesmo assim, só compramos o necessário. Até o carro nós usamos o mínimo possível, só para andar longas distâncias, porque o combustível subiu muito”, conta.

Sônia diz que a situação dela e da irmã hoje é completamente diferente do que no início de 2002. “Em meus quase 50 anos de vida, estou passando por uma situação totalmente diferente de tudo o que eu já havia presenciado. Nunca fiz tanta economia e, mesmo assim, o dinheiro só dá para o essencial. Não temos mais o que cortar”, lamenta Sônia.

Racionalização

Profissional liberal, a dentista Regina Camargo, 42 anos, tem o mesmo desafio das irmãs Freitas a cada novo mês: driblar os aumentos com uma renda variável. Morando com a filha de 20 anos, estudante, Regina diz que não é possível apontar uma situação que esteja “pesando” mais no orçamento da casa.

“Tudo está pesando. Em casa eu racionalizo o uso de tudo. Desde a época do apagão, em 2001, nós nos habituamos a economizar energia. Na ocasião, eu desliguei o freezer e nunca mais o reativei. Troquei as lâmpadas fluorescentes por aquelas de consumo reduzido e deixo todos os aparelhos fora da tomada enquanto não estão em uso”, conta Regina.

Como no consultório odontológico é mais difícil economizar porque não se pode abrir mão de alguns equipamentos, Regina “aperta” no que pode. Há um ano dispensou a secretária - para cortar um gasto mensal de R$ 400,00 - e, desde então, está apenas com a secretária eletrônica.

Com os constantes aumentos da gasolina, ela prepara seu itinerário de acordo com os afazeres do dia. “Eu ‘desenho’ o caminho mais curto que posso fazer para realizar todas as atividades de uma só vez. Mas há coisas das quais não posso escapar, como por exemplo, o aumento de preços dos materiais que utilizo no consultório, além dos impostos que pago”, observa Regina.

Assim como ela, seus pacientes também estão precisando cortar gastos, o que reflete diretamente na renda da dentista. “Há muito tempo não atendo um paciente que faz o tratamento dentário completo de uma só vez”, conta.

Com uma renda mensal variando de R$ 2 mil a R$ 3 mil, Regina traz os gastos dela e da filha na ponta do lápis. Todo mês ela faz uma lista com o que vai receber, as despesas fixas da casa e do consultório e um item denominado “diversos”.

“Nesse item entram algumas coisas que minha filha me pede, como um tênis. Quando o mês foi mais difícil, o item diversos sai da lista e ela (a filha) tem que entender. Ao longo do ano eu também vou controlando nossas despesas médicas. Quem não tem renda fixa, precisa ter tudo na ponta do lápis”, diz Regina.

Queda de padrão

O casal de aposentados Fernando Cardoso Furtado, 70 anos, e Aparecida Lourdes da Cunha Cardoso, 66 anos, reclama que a diminuição do poder aquisitivo resultou na queda do padrão de vida.

“Essa situação se reflete em tudo, por isso, estamos cortando tudo o que é possível. Já suspendi a assinatura de revistas, passamos a usar o telefone o mínimo possível, o celular eu só utilizo para receber ligações ou fazer chamadas a cobrar, cortamos todos os supérfluos no supermercado, enfim, tudo está racionado”, diz Furtado.

O lazer do casal também foi afetado. Acostumados a fazer duas viagens por ano, em 2002 Fernando e Aparecida não saíram de Bauru nenhuma vez. “Para driblar todas essas altas, nosso padrão de vida está mudando bastante. Já estava sendo assim há alguns anos, mas ultimamente a situação tem piorado. O custo de vida previsto pelo governo é muito diferente da realidade”, assinala Furtado.

Ritmo lento

A comerciante Rita de Cássia Melo está sentindo as agruras do cenário econômico em sua empresa e em casa. Proprietária de uma loja de piscinas, ela conta que em pleno verão os negócios estão num ritmo decepcionante. “Estamos vivendo, basicamente, para comer. Até roupas eu estou evitando de comprar e, em lugar disso, estou reformando as que já tenho. A pizza de R$ 10,00 dos finais de semana também acabou”, comenta.

Medicamentos ela diz que só manda fazer em farmácias de manipulação, o que reduziria o custo em cerca de 20%. Morando com o marido e um filho de 15 anos, Rita diz que no supermercado a lista de compras é absolutamente enxuta e que os supérfluos já não fazem mais parte dela há bastante tempo. Neste ano, o filho foi punido pela inflação com a suspensão do curso de inglês, que estava pesando no orçamento familiar. Gasolina no carro ela só coloca à vista e em pequenos valores - geralmente R$ 20,00 por semana - para não correr o risco de “se enrolar” com o cheque especial.