A melhor maneira de prevenir os distúrbios da fala, segundo os fonoaudiólogos, é oferecer estímulos adequados à criança desde o início de seu desenvolvimento. Estes estímulos começam no aleitamento materno. A mãe que oferece o peito ao bebê contribui para o amadurecimento correto de estruturas que serão fundamentais à fala mais tarde.
“O formato do seio, o mamilo e a sucção fazem com que a criança trabalhe com forças musculares que são essenciais para o amadurecimento das estruturas oraisâ€, explica a fonoaudióloga Liliane Campos Stumm.
Enquanto suga, o bebê faz movimentos de contração e relaxamento em toda a musculatura facial. Ele aprende a controlar e equilibrar os movimentos da língua, dos lábios, das bochechas e da mandíbula - estruturas que serão fundamentais para a produção correta da fala.
Outra vantagem do aleitamento materno é que a criança que mama no peito geralmente não precisa da mamadeira nem da chupeta. “Embora os bicos artificiais tenham sua importância nos primeiros meses de vida, este hábito deve ser limitado até por volta dos dois anos, pois pode se tornar prejudicialâ€, afirma Stumm.
Ela explica que a sucção destes bicos favorece uma alteração na postura dos músculos orofaciais, principalmente da língua. â€œÉ comum a criança falar com a chupeta na boca, por exemplo, o que favorece a colocação da língua entre os dentes. Esta interposição dificulta a formação de vários fonemas, que precisam da língua muito bem posicionada para que tenham um som adequadoâ€, observa.
A sucção dos bicos artificiais e do dedo também pode causar uma alteração importante no formato da arcada dentária, o que também vai atrapalhar a formação dos fonemas mais tarde. Além disso, segundo ela, a criança precisa passar por todas as outras fases do desenvolvimento. A mamadeira deve dar lugar à introdução progressiva de alimentos. Primeiro eles são mais pastosos, depois passam a ser oferecidos em pedaços. A mastigação e a deglutição também vão funcionar como exercícios para as estruturas que serão usadas na fala.
“Uma criança que é alimentada pela mamadeira até os dois ou três anos de idade perde a oportunidade de fortalecer estas estruturas. Se a musculatura não for suficientemente forte e competente, haverá dificuldade na produção dos fonemasâ€, acrescenta.
Respiração
â€œÉ importantíssimo que a criança use o nariz para respirar. Primeiro porque os pêlos aquecem e purificam o ar. Segundo porque a criança que respira muito pela boca acaba desenvolvendo uma má postura de língua, que futuramente pode ser prejudicial para a aquisição da falaâ€, comenta Stumm. Além disso, a criança que respira pela boca tende a ficar com a musculatura dos lábios e das bochechas mais flácidas, o que também vai influenciar negativamente no aprendizado da fala, além de alterar o formato da arcada dentária. Ao respirar pelo nariz, a ponta da língua é mantida encostada no palato (céu da boca), descansando atrás dos dentes incisivos superiores. Enquanto isso, os lábios permanecem fechados, mantendo a adequada oclusão dos dentes. A criança que respira pelo nariz mantém a língua solta no assoalho da boca, além de ficar com a boca aberta, o que favorece a flacidez muscular.
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Outras causas
Nem sempre a dificuldade na fala está na articulação ou posicionamento das estruturas orais. Algumas vezes, a criança não consegue falar porque tem alterações sensoriais, anatômicas, cognitivas ou neurológicas.
Para aprender a falar, a criança tem que imitar o que os adultos fazem. O sucesso desta reprodução depende, primeiramente, dela ouvir e enxergar bem.
De acordo com a fonoaudióloga Dionísia Aparecida Cusin Lamônica, o bebê que tem distúrbios visuais não vai conseguir enxergar detalhadamente o que acontece na boca das outras pessoas quando conversam. Se o problema é auditivo, ele não terá o que reproduzir.
Nestes casos, a criança só vai aprender a falar depois que receber tratamento adequado para estes distúrbios sensoriais, seja com um aparelho auditivo ou com a adoção dos óculos.
A disfunção também pode ser causada por uma malformação anatômica, como é o o caso dos fissurados e das crianças que têm o formato inadequado do palato, por exemplo, nestes casos, a correção da fala só será possível depois de uma intervenção cirúrgica que reverta o problema.
Outro fator que pode estar relacionado à dificuldade na fala é o atraso no desenvolvimento neurológico. Antes de falar, a criança precisa assimilar conceitos e relacioná-los a palavras. Uma criança que tem problemas cognitivos ou neurológicos pode ter dificuldade para falar em diferentes níveis.
Dependendo da disfunção, ela não consegue assimilar conceitos. Ou senão, ela tem os conceitos, mas não consegue reproduzi-los, formando um conjunto de palavras estranhas. Outras vezes, ela tem os conceitos, mas seu cérebro não consegue coordenar as estruturas para reproduzi-los.
As fonoaudiólogas ouvidas pela reportagem lembram que o problema da fala vai muito além de uma simples língua presa. Por isso é tão importante observar o desenvolvimento da criança e encaminhá-la ao profissional tão logo se suspeite de uma alteração.