Três em cada quatro pessoas pobres no mundo vivem em áreas rurais e seu sustento depende direta ou indiretamente da agricultura. A agricultura, incluindo nela os cultivos, a criação de gado, a pesca e a silvicultura, é o setor mais importante na maioria dos países pobres e representa de um quarto a metade do PIB e a maior parte de suas rendas com exportações. Para os próximos 30 ou 40 anos, espera-se que a demanda por alimentos será o dobro da atual nos países pobres.
Entretanto, nas décadas de 80 e 90, houve uma acentuada queda no financiamento da agricultura e do desenvolvimento rural, particularmente na África. Devemos reverter esta tendência se realmente pretendemos atingir as metas estabelecidas pelas Nações Unidas de reduzir à metade a quantidade de pessoas pobres até 2015. Os subsídios à agricultura dos países ricos ajudam a deixar fora dos mercados os produtos agropecuários dos países em desenvolvimento e a manter artificialmente seus preços baixos.
Isto tem pouco sentido do ponto de vista econômico, pois muitos países pobres têm uma vantagem competitiva graças ao baixo custo de sua mão-de-obra e de sua terra. Portanto, o aumento de suas exportações agrícolas permitiria que comprassem mais dos países ricos. A indisponibilidade de grande parte dos mercados europeu, japonês e norte-americano para os produtos dos países em desenvolvimento desanima os investimentos na agricultura dessas nações. No entanto, a eliminação dos subsídios, por si só, não é suficiente.
A agricultura foi apoiada pelos governos em todos os países nos quais floresceu. Os setores agrícolas de países em desenvolvimento com maior êxito, como os do Chile e de Taiwan, foram inclusive mais além, criando um bom clima para os investimentos privados. Estes investimentos não se produzem em uma atividade sujeita a excessivos impostos ou que se situe em locais sem infra-estrutura.
Na África Austral, a seca está causando a morte por inanição de muitas pessoas. Mas há métodos para reduzir o impacto da seca, como a irrigação. Boa parte da irrigação se baseia no armazenamento de água em depósitos ou represas quando é abundante, para ser utilizada durante a seca. A irrigação agora é o apoio para cerca de 40% do fornecimento mundial de alimentos. São necessários mais investimentos em infra-estrutura hidráulica, não só para irrigação como também para água corrente e de uso industrial.
Sem investimentos privados para fornecer créditos para sementes, fertilizantes e maquinaria, sem melhorias tecnológicas e sem uma pesquisa séria sobre os problemas dos agricultores, como a falta de estradas, as perspectivas para o desenvolvimento agrícola resultam limitadas.
Junto a isso, estão os baixos níveis educacionais e de saúde no meio rural, agravados nos anos recentes pela expansão da aids. Pode, realmente, ser uma surpresa que a paralisação, a fome e a pobreza sejam características destes lugares? Estou convencido de que o que se precisa para estimular o desenvolvimento rural nos países pobres é que os países ricos reduzam sua política protecionista, bem como que as nações pobres demonstrem verdadeiro compromisso com a agricultura através da destinação de recursos e que se crie um ambiente apropriado para os investimentos privados. Nos países que estão sofrendo contendas civis, a estabilidade é um requisito prévio fundamental, enquanto a curto prazo são necessárias a ajuda alimentar e redes de segurança social. (O autor, Kevin Cleaver, é diretor de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Banco Mundial)