08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Paradoxo global


| Tempo de leitura: 3 min

A revista Veja, desde o primeiro mandato de FHC, sempre defendeu com unhas e dentes a inclusão rápida e efetiva do Brasil na política econômica de mercado. Endossou todas as medidas econômicas que privilegiaram a hegemonia norte-americana, sublimou ao máximo o protecionismo e as outras conseqüências danosas desse modelo. Mesmo agora, com a ascensão do PT, o antes abominável governo da “contra-mão da história” está sendo bajulado, ainda que de maneira velada pela revista, por dar sinais de que vai seguir a cartilha do FMI.

O paradoxo da revista Veja começa no fato de que, mesmo que se diga o contrário, a política econômica e a internacional não são independentes e trazem elementos fundidos das intenções de George Bush. E é exatamente o principal desses elementos, a ganância petrolífera dos Estados Unidos e o desrespeito pelos órgãos internacionais, que obriga a revista a tratar com cuidado a questão da nova guerra.

Diferente da invasão no Afeganistão, onde obteve o apoio de outros países importantes da ONU, a nova situação faz com que a Veja desenhe uma estratégia de ataque a George Bush que saia do retrato puramente caricatural e arrivista, do período pós eleitoral. Às trapalhadas e gafes de George .Bush, sucede uma ameaça verdadeira para à paz mundial, muito além do “perigo” que Saddam Hussein representa. Sabe-se que os países Árabes podem e devem se irritar com a nova invasão, pois não há nada que prove ou justifique efetivamente tal invasão. Os atentados terroristas que vingarão a agressão aos muçulmanos serão inevitáveis, inúmeros e extremos. E o pouco caso com os países da Otan e ONU também será levado em conta, e provará a intenção hegemônica dos Estados Unidos.

Com este panorama, só restou a Veja atacar o governo que, se não defendeu por si só, fez e quis fazer acreditar que seria o baluarte democrático e econômico, a salvação para o Brasil. Agora a revista se vê na posição de alguém que tem de atacar e ao mesmo tempo defender uma idéia. A cada matéria de 3 páginas que espinafra George Bush, segue-se mais 3 páginas que desenham o retrato de miséria dos iraquianos e as sandices de seu ditador. Quase que justificando o desejo americano, mostra-se o ditador iraquiano e sua tirania e esquece-se que inúmeras outras ditaduras semelhantes desenvolvem-se à sombra e sob os auspícios do tio Sam. Veja ao lado, a Arábia Saudita, por exemplo.

Em momentos mais ambíguos chega-se a citar Hegel e a “Astúcia da Razão”, para mostrar que os americanos são guiados pela sua obsessão, insensíveis às opiniões exteriores, mas acabarão realizando um projeto universal onde a democracia triunfará. Páginas depois, são obrigados a questionar os leitores sobre o futuro do Iraque “Pós-Saddam”, pois sabe-se que um novo governo civil, apoiado pelos americanos, transformará o território em uma quase colônia americana, espoliando o povo do mesmo modo, com o revés da falta de soberania.

É claro que a Veja não defende a guerra no Oriente Médio, mas a postura dos americanos diante dos seus interesses externos ( veja o caso de Israel) e a postura da revista durante anos de defesa do modelo americano fazem com que o conteúdo se desdobre em ataques e defesas, às vezes contraditórios e até inconsistentes. O ex-presidente Fernando Henrique, por exemplo, aparece dizendo que a guerra é, sim, por questões antiterrorismo e libertárias, pois o petróleo do Iraque, mesmo sendo a segunda maior reserva mundial, não interessa aos americanos, por ser de difícil exploração. É o mesmo que dizer que as próximas incursões americanas serão em Serra Leoa e Ruanda, pois eles se preocupam com os massacres que acontecem lá. Mas sabe-se que para Serra Leoa eles mandam os traficantes de diamantes e em Ruanda não há nada para explorar. Podemos dizer então que a posição da Veja diante da guerra EUA e Iraque é coerente com o que prega há 10 anos: totalmente PSDB. (Luís Paulo C. Domingues - RG 17115765)