O rio Tocantins é um dos principais do Brasil. No Pará, ele tem uma função importantíssima, seja sustentando sua comunidade ribeirinha, formada em sua maioria de pescadores, seja provocando o imaginário, através das lendas que têm. Como pano de fundo, suas águas.
São inúmeras as histórias de embarcações naufragadas em seu leito, e para desvendar a verdade, Márcio Cunha mergulhou literalmente de cabeça e começa a catalogar tudo o que encontra pela frente, com o objetivo de resgatar os velhos barcos e formar, com eles, um parque subaquático.
O trabalho desenvolvido na região de Tucuruí, Sudeste do Pará, soma três meses. Já as águas do rio Tocantins são alvo de Cunha há um ano. Porém, sua experiência como mergulhador, tanto em água doce quanto salgada, já passa dos dez anos. A atual base de procura do pesquisador está fixada no bairro do Mangal, um dos mais antigos da cidade, onde conta com a colaboração de 24 voluntários, que cedem do transporte até o flutuante, emprestam o “paiolâ€, local onde guarda todo o equipamento de mergulho, e auxiliam em tudo que é preciso.
De acordo com Cunha, “quem não pode (os pescadores) é quem mais acaba ajudandoâ€, revela, apontando que tudo o que tem feito é por conta própria, sem apoio empresarial ou governamental.
Um dos principais colaboradores é João Batista, pescador há mais de 20 anos e que reconhece o trabalho que está sendo feito pelo mergulhador. Além de estar sempre à disposição, inclusive aos domingos, para mais uma expedição, também não nega esforço na hora de arregaçar as mangas e colocar a mão na massa e trabalhar.
Outro “parceiro†é Ailton Soares de Oliveira, o Bodão, que aproveita todo o tempo de folga para ajudar a “caçar†os navios naufragados. Oliveira aprendeu a mergulhar há oito meses com Cunha e, desde então, vem colaborando com o projeto.
Aliás, uma contribuição que já mostrou seus frutos, pois a primeira grande embarcação encontrada foi localizada pela dupla Cunha e Oliveira, às vésperas de 2003.
Emily
“Foi uma sorte, um acaso. Estávamos mergulhando sem pretensão nenhuma e acabei achando um pedacinho do barcoâ€, lembra Oliveira. De acordo com seu depoimento, havia somente um pequeno pedaço de ferro aparecendo no leito do rio, “como se fosse um trilhoâ€, lembra.
Com algumas dragagens, mais surpresas. O barco, classificado como uma alvarenga (espécie de embarcação usada para carga e descarga de navios, pouco diferente de uma balsa cargueira, que pode ser puxado por uma outra embarcação ou possuir seu próprio meio de propulsão), chama-se Emily. Pescadores e moradores mais antigos acreditam que ela tenha afundado cerca de 40 a 50 anos atrás, pelas características apresentadas.
Toda em arrebite, ela se conserva praticamente sem danos. Inclusive o assoalho e algumas peças em madeira ainda podem ser observados com toda rusticidade de antes.
O naufrágio de Emily teria sido provocado por uma colisão na Pedra Grande, uma formação rochosa localizada um pouco acima de onde se encontra a alvarenga atualmente. No casco, é possível conferir a fenda causada pelo acidente.
â€œÉ como cavar a própria históriaâ€, explica Cunha. Sem recursos e com uma obstinação inabalável, ele vai buscando apoios ou custeando, por conta própria, os serviços para desvendar e desenterrar toda a embarcação. E a pressa é grande, já que com a chegada do inverno paraense (período de chuvas que vai de novembro a maio), a força da água carrega a areia que pode voltar a encobrir Emily.
Além dessa embarcação, testemunhos apontam outros três naufrágios próximos à cidade de Tucuruí. Com essas descobertas, o mergulhador pretende acomodá-las em um local estratégico, onde a água não carregue tanta areia e o turista possa observar os porões dos velhos navios e alvarengas povoados de peixes típicos do rio Tocantins.
De acordo com a pesquisa de Cunha, existem duas cidades na Amazônia com grande potencialidade de desenvolver o turismo subaquático, Tucuruí e Cametá.
A preferência é por Tucuruí, já que o acesso para os visitantes, principalmente os estrangeiros ou de outras localidades do Brasil, é mais fácil, contando com acessos viário, hidroviário e aéreo já implantados.
O mergulhador também lembra que o local tem vantagens significativas sobre outros pontos brasileiros: “Os turistas querem ver peixe de água doce, perto da floresta amazônica, onde é possível mergulhar. Aqui tem tudo isso, além do acesso fácil e próximo à Capital Belémâ€, explica. “A visibilidade da água é muito boa, principalmente durante o período de verão, outro motivo para atrair mais turistasâ€, analisa Márcio.
Seu objetivo é reunir o turismo à preservação ambiental, tendo a história dessas embarcações naufragadas, e, conseqüentemente, da própria cidade, como pano de fundo. Ou seja, uma reserva aquática onde os porões serviriam de reduto reprodutivo de espécies como tucunaré, jaú, pirarara, jutuarana, tuí, bacu, mandi e muitos outros.
O projeto também visa conscientizar os ribeirinhos e a população local. Preocupação pertinente para Ailton Oliveira, que afirma passar horas embaixo d’água sem encontrar, muitas vezes, nenhum peixe: “Tem que dar uma parada para os peixes reproduzir. Fazer a conscientização do pessoal em relação ao lixo é outra necessidade. A gente, que vive neste rio, acaba se tornando um eterno vigilanteâ€. E completa: “E não são só os mais pobres. As pessoas de maior poder aquisitivo são as que mais sujamâ€.
Outro plano
Além do parque subaquático da jusante, parte posterior à barragem da Hidrelétrica de Tucuruí, que pode ser melhor aproveitado durante o verão paraense (de abril a setembro), Márcio Cunha ainda tem intenção de criar outro parque no mesmo estilo na montante, no lago de Tucuruí, para atividades na época de inverno. Ou seja, com os dois parques criados, tanto a natureza quanto a comunidade se beneficiam, já que seriam criadas novas oportunidades de trabalho, desenvolvendo a sustentabilidade da região.
Dentre os esportes radicais, o mergulho é um grande filão. O potencial das águas do Tocantins proporciona mergulhos para iniciantes e profissionais, com profundidades que variam de cinco a 40 metros, apresentando também variedades de cor e visibilidade. Mais um ponto a favor da criação e apoio a essa iniciativa.