A grande filósofa francesa Sylviane Agacinski escreveu que, embora ninguém duvide que os homens inventaram a guerra, as mulheres inventaram a política, no dia em que explicaram a eles que para possuí-las não era necessário usar a força, como quem ataca uma fortaleza; no dia em que fizeram com que compreendessem que a sedução era uma fórmula mais eficaz e mais civilizada de “possuir†uma mulher. A política, exercida por mulheres tem, portanto, peculiaridades. Não se trata de defender o que fazemos melhor do que os homens. Não. A exercemos de outra maneira. De uma maneira complementar, que fecha o círculo de outro modo de exercer o poder, um modo masculino no qual a força - dos votos, das maiorias, das influências... - sempre se coloca acima da força do acordo, do diálogo, da razão.
O mundo é feito de homens e mulheres. Juntos vivemos, sofremos, desfrutamos. A lógica indica que juntos tomaríamos as decisões - todas as decisões - que afetam nossas vidas presentes e o futuro de nossos filhos. Não agir assim, excluir - por ação ou passividade - da tomada de decisões uma grande parte da sociedade não deixa de ser uma decisão absurda, ilógica, nas mentes masculinas tão acostumadas a calcular custo-benefício, tão apegadas à utilização ao máximo dos recursos humanos, embora não seja mais para recuperar uma parte do que foi investido em sua formação.
Se aplicarmos a uma multinacional a lógica-ilógica que funciona na política, todo mundo diria que quem toma a decisão de não “utilizar†uma parte dos recursos humanos melhor formados - com o próprio capital da empresa - não deveria ter capacidade de decisão, pois, no mínimo, não está rendendo ao máximo as potencialidades da companhia. Entretanto, no mundo da política levamos séculos tendo de argumentar o óbvio. Primeiro, que tínhamos os mesmos direitos que os homens quanto a receber formação. Depois, que tínhamos direito a deixar de sermos invisíveis. Que não nos conformávamos em ficar na sombra, atrás. Que deveríamos - porque era nosso direito - compartilhar sucesso e riscos. Esta continua sendo, ainda hoje, uma batalha que não terminou. Aceita-se que haja algumas mulheres na política, na primeira linha... Aceita-se, inclusive, que algumas são excepcionais. E é aí onde começa o problema.
Feminilizar a política não significa que tenhamos de excluir dela os homens. Significa que temos de incorporar nossa visão, a visão feminina, que nada mais é do que a de um componente da sociedade, não uma porcentagem. As mulheres têm a obrigação de reivindicar seu papel de protagonistas. Somos as primeiras a ter isso bem claro. E necessitamos dos homens para que este processo inseparável de mudança de papéis se acelere. Não queremos “tomar o lugar deles pela forçaâ€, não queremos provocá-los demais. Queremos convencê-los a nos ajudar a percorrermos juntos o caminho. Tampouco podemos esperar eternamente: o trem está passando e é preciso pegá-lo.
A força das mulheres é capaz de parar alguma guerra. A força das mulheres é capaz de reconstruir a paz e a liberdade. Não que sejamos mais valentes . Não. É que damos a vida, protegemos - como fazem todos os seres vivos da natureza - a nossa ninhada. E isso nos dá a força para não renunciar nunca ao uso da política: a arte do acordo em lugar do recurso da dominação. Isso é feminilizar a política. (A autora, Rosa Díez, é euro-deputada e presidente dos Socialistas Espanhóis no Parlamento Europeu)