Certa vez, concedeu o famoso destino, uma entrevista coletiva. Entre outras afirmações, o destino explicava que seus golpes são simplesmente duros: “Meu punho direito é tão forte quanto o esquerdo. Confiança, fé, amor, enfim, os mais fortes adversários eu já venci com facilidade. Até agora, somente um de meus opositores permanece para mim invencível. Quando consigo derrubá-lo ao chão e penso que ele está derrotado, ele se coloca novamente em pé, totalmente disposto para a lutaâ€.
“Mas quem é esse adversário invencível?â€, perguntou então, um dos repórteres. “Eu estou falando da Esperança, é claro!â€, respondeu, com certa irritação, o destino. Muitas vezes somos levados a imaginar que toda a nossa vida já está escrita, antes mesmo de nascermos. Acreditamos que forças sobrenaturais controlam nossas decisões e que tanto sofrimento, como alegria são presentes do além. Para muitos, o ser humano vive entre o Deus e o diabo. Se não nos refugiamos na proteção do primeiro ficamos à mercê das terríveis ações do segundo.
Neste universo de feitiçarias, forças sobrenaturais, milagres, curas divinas e intervenções diretas do sagrado, o ser humano acaba fixando “seu olhar para cima†e deixando de perceber que o mundo foi entregue a ele e cabe a ele mesmo construir sua própria história. Justamente nesta pequena palavra, “históriaâ€, encontra-se uma forte contradição à visão determinista do destino.
Se a existência humana possui uma história, torna-se impossível conciliá-la à intervenção direta do sobrenatural ou a um plano pré-determinado. A história exige que o ser humano seja livre frente suas alternativas. Em liberdade podemos interagir com nosso universo, transformando-o e adequando-o às nossas necessidades. Como sujeitos da história, os seres humanos possuem a “caneta†em suas mãos com a qual “escrevem†o sentido de sua existência.
â€œÉ nos momentos de decisão que o seu destino é traçado†(Anthony Robbins). Até mesmo a noção de “desenvolvimento†não se harmoniza com a realidade histórica do ser humano, pois qualquer concepção desenvolvimentista é obrigatoriamente teleológica, ou seja, seu desenrolar necessariamente almeja um fim determinado. Já a história constitui-se em um processo aberto de interação do homem com seu universo.
Ninguém sabe para onde exatamente este processo pode nos levar. Se palavras como destino ou desenvolvimento não se harmonizam com a liberdade humana e a história decorrente desta, o mesmo não acontece com a palavra esperança. Esperança vem do latim “sperare†que significa esperar, este verbo latino por sua vez deriva do substantivo “spesâ€.
Enquanto no português esperança surgiu do verbo esperar, no latim deu-se o contrário: o substantivo serviu de base ao verbo. Portanto, etimologicamente esperar é fazer alguma coisa. Ter esperança é viver a certeza de que nossos sonhos para o futuro serão realizados. Neste sentido, Ernst Bloch entende a esperança como um princípio necessário que estimula todas as iniciativas humanas.
Assim, a esperança deixa de ser simplesmente um sentimento ou um desejo interior, para se constituir em um verdadeiro movimento de construção do novo. Para Bloch, o presente não é determinado pelo passado, mas sim pelo futuro que sonhamos. No momento do agora as tendências latentes se abrem para o tempo que está por vir. Ao assumí-las e colocá-las em realização vivemos o sentido pleno da palavra esperança.
“O futuro não é um presente, é uma conquista†(Harry Lauder). Mesmo para o humanismo evolucionista, a esperança existe somente na liberdade. Qualquer determinação dogmática que venha a ser obstáculo para a ação histórica do ser humano constitui-se em uma forma de abafar a experiência humana de transformação de sua realidade, de busca do novo, ou seja, de sua esperança.
“Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece†(Aldous Huxley). Portanto, a liberdade constitui-se em um pré-requisito para a esperança. Sem dúvida alguma esta liberdade não é absoluta, o ser humano nunca é livre totalmente, mas sempre enfrenta as limitações de seu momento histórico, da natureza, de sua cultura ou mentalidade.
Mas, a liberdade de tentativa, o esforço livre de busca, torna-se espaço obrigatório para a vivência da esperança, pois, como afirma Karl Barth, ela somente acontece na realização do próximo passo. Não é por menos que na teologia cristã, a esperança pertence, junto com a fé e a caridade, a três virtudes teologais.
Enquanto a fé significa a coragem de viver plenamente e a caridade o gesto solidário que nos harmoniza com o universo, a esperança é a própria realização do futuro que sonhamos. Perder a esperança é o mesmo que entregar a outros a “caneta†e assumir uma postura de resignação.
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