10 de julho de 2026
Cultura

Ornelas vira menestrel em Sampa

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

O bauruense Gustavo Ornelas tem tudo para não deixar de ser conhecido somente pela presença em bares de boa música ao vivo da cidade. Reconhecido pela habilidade com o violão e dono de uma peculiar potência de voz, Ornelas deixou o banquinho e o violão dos lugares daqui para se tornar um menestrel em São Paulo.

O salto na carreira ainda assusta Ornelas. Contudo, o músico, arranjador e compositor de MPB - que foi para Sampa tentar a sorte - foi surpreendido com um clarão em frente ao palco. Em apenas dois meses na capital do Estado, Ornelas está quase que literalmente tendo as graças de subir nas asas do mesmo autor de “Condor” e outras canções, Osvaldo Montenegro.

Sim. O músico bauruense é o diretor musical de um espetáculo profissional e ainda participa de uma peça só de menestréis do cantor e compositor de outros sucessos como “Agonia” e “Bandolins”. Em entrevista ao JC, o jovem promissor Gustavo Ornelas fala desse grito musical que estava preso na garganta.

Jornal da Cidade - O que você está fazendo em São Paulo? Gustavo Ornelas - Eu estou fazendo dois musicais com o Osvaldo Montenegro. O “Vale Encantado”, que vai estrear dia 15 de março próximo, todo sábado e domingo no Teatro Dias Gomes. O espetáculo, que vai até o dia 6 de abril, é fruto de uma oficina de menestréis. A conclusão do curso é a apresentação do “Vale Encantado”. É um trabalho para amadores feito pelo Osvaldo. Qualquer pessoa pode fazer o teste e uma vez aprovado participa da oficina de menestréis e integra a peça com música, dança e interpretação.

JC - E o segundo musical, além da oficina de menestréis? Ornelas - Eu fui para São Paulo para fazer o teste da oficina e ao me apresentar para o Osvaldo ele me chamou para fazer o musical “Léo e Bia”, mas esse com formação inteira profissional. O espetáculo musical vai correr o Brasil inteiro e nós estamos em pleno ensaio e produção.

JC - Como surgiu o convite para você fazer o musical profissional? Ornelas - O “Vale Encantado” abriu a porta. Me inscrevi para esse musical, que é o primeiro dirigido pelo próprio Osvaldo Montenegro. Nos testes, tive a oportunidade de mostrar alguma coisa do meu trabalho e ele me convidou para cuidar da parte musical do “Léo e Bia”, que já é uma produção profissional.

JC - Como foi o teste que o integrou ao grupo do Osvaldo Montenegro? Ornelas - Ele tem um projeto chamado Vitrine, onde as pessoas se apresentam, mostram o que sabem fazer. É uma espécie de se vira em quatro minutos. Eu toquei, cantei, apresentei uma proposta de acordes e arranjo. O Osvaldo já me conhecia, conhecia um pouco do meu trabalho e isso acho que ajudou. Há quatro anos eu tive o primeiro contato com ele, acompanhando shows dele. Eu ia em shows dele, ele me conhecia como seu fã mas não conhecia meu trabalho, meus arranjos. No projeto Vitrine ele gostou e eu passei a integrar a Oficina de Menestréis. Foi tudo muito rápido. Eu toquei duas músicas misturando vários estilos na escolha. Ele se interessou e convidou.

JC - Você está sendo modesto, mas foi escolhido diretor musical durante um teste para um curso de menestrel? Ornelas - É. É isso. (Riso encabulado). Ele me convidou para ser o responsável pela direção musical. Isso tudo ainda é novidade para mim. Eu cheguei em São Paulo e em duas semanas de testes recebi o convite para uma produção profissional. Não esperava ser convidado para participar e muito menos esperava dirigir. Meu plano era aprender para depois tentar uma vaga. Mas surgiu o convite e estou muito feliz por isso, apesar do choque. Caiu a ficha para o convite inesperado e é muita responsabilidade. Estou onde queria estar antes do que eu pensava. É um choque ainda.

JC - Isso te deu uma injeção de ânimo na carreira como músico? Ornelas - Eu convivo com a música desde pequeno e ainda cedo fui para a Espanha e a França estudar violão clássico e popular. Aprendi e tive oportunidade de ficar por lá, mas sempre quis vir para a minha terra, mesmo sabendo que no Brasil é difícil. No retorno, passei por uma fase necessária de contato com o público tocando músico ao vivo em casas noturnas, bares. Mas eu já estava desanimado do ponto de vista do planejamento. Eu tinha receio de estacionar. Então decidi ir para São Paulo e estar experimentando uma direção musical ainda está batendo forte dentro de mim. Eu estava estacionado, mesmo tocando. Fui para tentar a sorte.

JC - Em São Paulo você viu que já existia um menestrel em você? Ornelas - Fui para lá com a intenção de ralar, de ir mostrando as coisas aos poucos. Não consegui nada ainda. Mas não há como negar que o convite do Osvaldo mudou completamente a minha situação como músico e a perspectiva pessoal. Eu viajei sabendo que há muita gente boa, que conhece e vive a música a mais tempo do que eu e ainda não conseguiu uma chance. O convite surgiu como um relâmpago e eu estou seguro de que posso evoluir, posso investir no que eu gosto, na música.

JC - O que você acha que fez a diferença na escolha para a direção musical? Ornelas - Então, são 40 músicos que estão no espetáculo “Léo e Bia”. O que aconteceu foi que a formação em teoria musical me abriu essa oportunidade em relação aos demais. Tem gente boa em voz e toca bem. Mas o Osvaldo buscou alguém que pudesse cantar, abrir vozes no roteiro musical, fazer arranjo, alguém que pudesse alterar a estrutura vocal e instrumental se fosse preciso. O que eu senti é que a formação em teoria, os cursos que eu fiz, me abriram essa oportunidade.

JC - Então explica como se dá a direção musical do espetáculo? Ornelas - Uma vez escolhido, eu respondo por toda a parte musical. A peça é formada por músicas do Osvaldo. Além das falas dos personagens, a peça é formada por músicas. Não é igual ópera que você canta as falas. Lá são interpretações integradas a músicas em um roteiro. Eu respondo pela parte vocal, ensaio o grupo vocal do “Vale Encantado” e dirigo a estrutura de arranjo e formação musical do “Léo e Bia”. Dirijo a estrutura de cada instrumento no arranjo, escrevo os arranjos e coordeno a execução das músicas escritas pelo Osvaldo. Eu canto e toco também no espetáculo.

JC - No Interior não é muito conhecido o trabalho de menestrel. Nas capitais, a mistura de teatro com música tem boa recepção? Ornelas - Em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, esse tipo de trabalho tem muito boa recepção. E o Osvaldo Montenegro é respeitado pelo trabalho também no espetáculo que gira em torno dos menestréis. O Osvaldo define o menestrel como contexto, conjunto. Tem que tentar ser completo. Não basta ser só músico, nem só ator, nem só dançarino e nem só cantar. Você não precisa ser bom em tudo isso, mas tem que gostar de todos esses gêneros. A oficina de menestrel tem a missão de integrar essas formas e de aperfeiçoar cada uma. Eu estudei violão, não sou dançarino, mas sempre gostei de dançar. Não sou desengonçado. Agora teatro eu não tinha feito nenhum.

JC - O que é o musical “Léo e Bia”? Ornelas - É um espetáculo profissional formado por oito pessoas e conta uma parte da história do próprio Osvaldo. A estréia será em São Paulo, no teatro Ruth Escobar, no início de junho próximo e fica um mês em cartaz na capital do Estado. Depois, o espetáculo vai rodar o Brasil.

JC - Voltando à carreira. Como você analisa os estágios nos barzinhos, a fase de estudos na Europa e a fase do menestrel? Ornelas - Quando eu fui para a Espanha, fui para estudar violão mesmo. Senti que cresci na parte teórica, me estruturei musicalmente. Estudei clássico e um pouco do flamenco. Também trabalhei a estrutura teórica deles com música brasileira. Na França eu estudei mais quatro meses. Recebi uma proposta na época para dar aula e tocar em casas francesas e em alguns países. Mas eu queria mesmo é tentar a sorte no Brasil, no meu país. Eu estava com a cabeça no meu país. Voltei e entrei no circuito de barzinhos. Foi muito bom o contato com o público, experimentei coisas novas. Mas isso completa um ciclo e eu achei que tinha chegado a hora de arriscar. Vivi um período de desânimo porque achei que não poderia mais arriscar minha vida com música. Agora eu quero mais, estou investindo no que eu gosto.

JC - Onde você quer chegar com a música? Ornelas - Não tenho pressa, mas quero viver a oportunidades que surgirem. Já estou vivendo isso. O próprio Osvaldo, nesse contato, está indicando oportunidades para trabalhar arranjos para outros músicos e cantores. Ele está falando mais de mim para outras pessoas, está aos poucos citando o meu trabalho. E eu sinto que posso aos poucos me tornar mais conhecido no meio artístico musical em São Paulo.

JC - Mal comparando, não é possível ter oportunidade de jogar no Corinthians treinando em um clube de Itaberá? Ornelas - Exatamente. (Risos). Seria isso. Você tem que estar no lugar certo, no centro onde as coisas acontecem. Agora, da mesma forma é difícil, tem muita gente ralando, buscando oportunidade.

JC - Mas você quer chegar a gravar suas próprias músicas? Ornelas - O que eu mais quero é isso. Mas nada me impede de aprender como estou aprendendo. Ao contrário, o Osvaldo é um compositor reconhecido e está trilhando a vida de menestrel e está indo muito bem. Eu quero continuar trabalhando nos musicais com ele, fazer shows com ele. Mas quero gravar músicas novas dele, propor novos arranjos, releitura e oferecer músicas minhas para gravar meu CD. Ando devagar porque já tive pressa...Mas hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, eu só tenho a certeza de que muito pouco eu sei e nada sei. (trecho cantarolado da música “Tocando em Frente”, de Almir Sater). Mas não vou parar. Vou fazer “A Lista” dos melhores amigos e buscar as melhores canções de Osvaldo Montenegro.