09 de julho de 2026
Articulistas

Bons ventos no mercado de câmbio


| Tempo de leitura: 3 min

O crescimento extraordinário do saldo de nosso comércio Exterior - podemos chegar a US$ 18 bilhões neste ano - já chegou ao nosso especulativo mercado de cambio. Depois de mais de seis meses em que o volume de compra da moeda americana foi sempre superior ao de venda, obrigando o Banco Central a vender suas reservas em moeda estrangeira para evitar que as cotações explodissem, os meses de janeiro e fevereiro apresentaram uma outra realidade: sobrou dólar no mercado!

Quando se projeta o cenário para os próximos meses, mesmo assumindo-se uma posição bem negativa para a rolagem dos vencimentos de nossa dívida externa, o quadro que aparece é ainda mais positivo. Se a guerra do Iraque não se transformar em um desastre inesperado, vamos viver um período de grande sobra de dólares. Isto acontece em função da forte sazonalidade da entrada de divisas geradas pelas exportações agrícolas nos próximos meses. O quadro para o ano como um todo será diferente, pois uma certa escassez de moedas fortes, em função da situação ainda difícil de nosso crédito externo, vai manter a taxa de câmbio pressionada no segundo semestre. Entretanto, no curto prazo estão criadas as condições necessárias para uma nova rodada de valorização do real!

Com uma oferta de dólares superior à sua demanda, a intensidade da queda da cotação do dólar ficará dependendo da ação do governo. Sem a entrada do BC no mercado, comprando as divisas que vão sobrar, ou a antecipação de compra, por parte do Tesouro, dos dólares que vai precisar na segunda metade do ano para fazer frente aos vencimentos de sua dívida externa, a valorização do real pode ser muito importante. Boa para o controle da inflação, fundamental para a sustentação política do ministro da Fazenda, uma taxa de câmbio mais forte pode afetar o comportamento futuro de nossas exportações. Esta verdadeira escolha de Sofia será uma das decisões mais importantes que o ministro Palocci terá de tomar nas próximas semanas.

Minha opinião é de que o mais importante neste momento é dar alguma estabilidade à taxa de câmbio. Pode haver uma pequena valorização para melhorar as expectativas, mas nada de significativo. Nada pior para o setor privado do que uma moeda que salte como canguru. Sem sugerir à volta de algum tipo de experiência de câmbio fixo - não sou doido - parece-me importante que o governo crie as condições estruturais e conjunturais para que os investidores consigam enxergar a cotação do dólar em um prazo relativamente longo. As condições estruturais básicas para que isto ocorra já existem, na medida em que temos hoje um déficit em conta corrente adequado. É preciso que o BC tenha coragem para evitar que as flutuações que vão ocorrer por conta de sazonalidades em nosso comércio exterior e nos vencimentos da dívida externa, impeçam a volta desta estabilidade.

O regime cambial que temos hoje está baseado na flutuação livre do real em relação ao dólar. Mas isto não impede que o BC atue para aparar estas flutuações previstas. Vamos ver se o ministro tem coragem para assumir que o governo tem legitimidade para operar no mercado de câmbio e deixar falar ao léu os nossos liberais de todos os dias. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)