11 de julho de 2026
Cultura

Memória ferroviária exibe segunda fase

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Com o objetivo de resgatar a história da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, o projeto “Nos trilhos da memória: Ferrovia e Ferroviários”, que tomou por base 38 depoimentos orais dos antigos ferroviários, encerra-se neste mês e abre espaço para a segunda fase do trabalho, que estudará a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB).

Segundo informações da assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o projeto desenvolvido pela SMC em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) está previsto para acabar neste ano e a idéia é a elaborar três livros a partir dos resultados da pesquisa, dois de depoimentos orais e um sobre a história documental das ferrovias. Além das publicações, todo o material obtido será disponibilizado para estudantes e pesquisadores.

Um dos ferroviários entrevistados, o aposentado Rinaldo Botelho, que trabalhou durante 30 anos na Companhia Paulista de Estrada de Ferro, afirma ter gostado muito de participar do projeto. â€œÉ bacana, a gente lembra de um tempo em que era feliz e não sabia”.

Suzana Lopes Batista, estagiária da SMC, participou da primeira etapa e diz ter aprendido a lidar com a reação dos entrevistados. “A maioria se emociona durante a conversa. Várias vezes tivemos que esperar uns cinco minutos antes de retomar.” Ela conta que, por vezes, a conversa transcendeu os limites profissionais. “Muitos deles foram mais que entrevistados e viraram verdadeiros amigos.”

A memória dos ferroviários pode revelar vários detalhes que não constam em documentos oficiais das empresas. A agente cultural Cynthia Regina Bombini Ferreira, chefe da Seção de Informação Histórica da SMC, ressalta este ponto ao falar sobre seu trabalho na primeira parte do projeto. “Depois de conversar com eles, a imagem que eu fazia da empresa mudou completamente.”

Ela diz ter aprendido que a realidade dentro da companhia era mais complicada do que estava acostumada a ouvir na infância. “Nem tudo eram flores, a vida lá dentro era muito dura”, diz.

História da NOB

Ainda de acordo com informações da assessoria de imprensa, proteger as fronteiras e levar progresso ao então despovoado estado do Mato Grosso foram as razões que levaram o antigo governo a pensar na construção de uma ferrovia rumo ao interior do País. Sem verbas, a melhor saída encontrada foi fazer um contrato de concessão a uma empresa privada.

Assim surgiu a Companhia Noroeste do Brasil (NOB), oficialmente fundada em junho de 1904 por um grupo de acionistas franceses e belgas. O primeiro passo da nova companhia era definir o melhor traçado para a ferrovia. Por influência do fazendeiro Azarias Leite, ficou decidido em 1905 que os trilhos partiriam de Bauru, e não de Agudos ou Pederneiras, como se cogitava na época. Cuiabá seria o ponto final da NOB.

Um vez definidos origem e destino, restava apenas começar a construir os trilhos. A missão parecia simples, mas a falta de informações precisas sobre a geografia do local, aliada a uma série de problemas administrativos, fez com que a história da Noroeste se tornasse um caso complicado.

O traçado foi modificado diversas vezes e a companhia trabalhou com dificuldades financeiras durante boa parte de sua existência. Em 1918, a União encampou a NOB, inaugurando uma nova fase na ferrovia. Arlindo Gomes Ribeiro da Luz, primeiro diretor do período que corresponde aos anos de 1918 e 1922, promoveu grandes mudanças administrativas, inclusive mudando a sede da NOB do Rio de Janeiro para Bauru.

Ainda segundo a asessoria, os primeiros anos como empresa estatal pareciam promissores, mas problemas técnicos e administrativos complicaram o crescimento da Noroeste. Esta situação não ocorria só na NOB, a maioria das outras estradas de ferro também atravessava um período difícil.

Em meados do século XX, um fato novo veio agravar o quadro das companhias de trem: o crescimento do transporte rodoviário.

O presidente da época, Juscelino Kubistchek transformou o sistema ferroviário quando, no dia 16 de março de 1957, determinou a criação da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), uma empresa que englobaria quase todas as companhias férreas do País. Tendo de cortar custos, ele optou por suprimir vários quilômetros de estradas de ferro.

Nove anos mais tarde, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil reduziu-se a Sistema Regional 10, ou simplesmente SR-10, um setor da rede federal. Em 1996 a NOB foi privatizada e, definitivamente, deixou de existir. Apesar das dificuldades que enfrentou, a Noroeste foi fundamental na constituição de Bauru e também de todo o Brasil. Ela elevou a cidade ao status de empresa modelo em toda América Latina. Ter trabalhado na ferrovia é motivo de orgulho para muitos ferroviários.

Serviço

Interessados em participar do projeto devem entrar em contato com a Secretaria Municipal de Cultura. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1072 e 235-1092, falar com Cynthia ou Suzana.