09 de julho de 2026
Articulistas

Iraque: o terceiro ato


| Tempo de leitura: 3 min

Está a ponto de começar o terceiro ato de uma tragédia. Os dois primeiros transcorreram sem que a imensa maioria dos espectadores soubessem bem qual era o verdadeiro roteiro, o sentido profundo da conturbada apresentação e os propósitos precisos do texto e da representação. Tampouco podemos prever agora se este terceiro ato será o último, o fim definitivo, ou se, pelo contrário, terá continuação. Estou me referindo, naturalmente, ao conflito do Golfo Pérsico-Arábico, que, iniciado com a guerra entre Irã e Iraque, dura há mais de 20 anos.

Estamos diante de um conflito que na realidade é único, o mesmo, embora vá se dividindo em episódios individualizados sucessivos. Subdividido, por sua enorme envergadura e importância, em vários conflitos menores - em relação ao conflito total, mas maiores também em si mesmos - interligados. Sua unidade original e radical deixa de ser percebida, se dilui, se nos fixamos apenas em cada um desses conflitos particulares que vêm ocorrendo, rompendo o fio que liga todas as peças e lhes dá direção e sentido

Eram apenas atos da tragédia que continua sendo representada, inicialmente com final ainda em aberto, mas cada vez mais previsível e esperado, ao qual vamos nos acostumando. Assim, o Iraque constitui uma parada, um ancoradouro, e mais caminho. Como foi no Afeganistão. Como foi, em seu momento, na Palestina. Como pode ser algum outro país da região, em qualquer outro momento, quando o roteiro assim exigir.

Este é o novo objetivo intermediário, o novo elo da cadeia: a ocupação do Iraque, para dispor dele. Esse país é o lugar mais adequado para continuar o projeto em qualquer outro território da região, e de forma muito especial no Golfo.

A maior parte do que ocorreu no Oriente Próximo e Médio nos últimos 20 ou 30 anos é conseqüência natural desse deslocamento, dessa emergência. A maior parte do que ocorrer nos próximos anos também o será. A administração norte-americana decidiu, há algum tempo, que nessa região fazia falta uma única potência predominante, soberana, e que essa potência era ela.

O ex-secretário de imprensa de Saddam Hussein escreveu há poucos dias um artigo no qual, entre outras, afirma uma coisa e recorda outra. Afirma que Saddam é tão bom tático quanto péssimo estrategista. Recorda que em seu encontro com Primakov, no dia 6 de outubro de 1990, insitiu nesse ponto: a potência que dominar o Golfo será a única potência mundial. É verdade também que os americanos, meses antes, diziam coisas muito parecidas. Muitos considerarão que este enorme projeto é um formidável fato de civilização, digno de todo agradecimento e elogio. Creio que estão em delírio tanto mental quanto moralmente.

Para mim, parece que é outra coisa, algo tão antigo quanto a própria humanidade, repetido à exaustão, carente de toda originalidade: um funesto plano político. No qual cabe de tudo, até o cinismo em grau superlativo. Alguém pode estranhar que necessite tempo, muito tempo? Alguém pode estranhar que exija engano, muito engano? É preciso opor resistência, muita resistência. (O autor, Pedro Martínez Montávez, é especialista em questões árabes e catedrático da Universidade Autônoma de Madri)