08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Conhecer as borboletas


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Noite dessas enquanto o sono não vinha, visto que a tosse me atacava, depois de organizar mentalmente minha agenda do dia seguinte e dos próximos dias, e após reler na memória um dos capítulos do meu livro de cabeceira, depois de devanear pelo futuro, vendo, como se estivessem prontos uns projetos pessoais nos quais ando trabalhando e como o sono não chegava mesmo, resolvi chamar o meu outro “Eu” para conversar. Não. Não é maluquice. Faço isso de vez em quando. Dei a este outro “Eu” um certo nome e bato longos papos com ele. Talvez por ser de carne e osso e não precisar me envolver na labuta do dia-a-dia, o certo é que ele é um sujeito muito melhor e mais sensato do que eu. Mesmo assim, andávamos meio estremecidos. Por razões que não vem ao caso, tinha dado uma gelada no amigo e deixado de procurá-lo ultimamente, visto minha saúde estar meio abalada. Em todo o caso ele não se fez de rogado. Atendeu meu chamado prontamente. Pedi as desculpas devidas e fiz a ele um balanço de desde quando conversávamos: “Quando se planta coisas boas, não se colhe, obrigatoriamente, coisas boas?” - questionei e ao final o meu Eu disse: “Mas não necessariamente a curto prazo. As vezes demora um pouco mais que de costume.” E citando Saint-Exupéry o outro “Eu” explicou: “Tu precisas aprender a suportar duas ou três larvas, se quiseres conhecer as borboletas.” E continuou: “O mal pelo mal não existe. O que nos parece mal, é sempre um bem que ainda não pôde ser compreendido. Dito isso, desapareceu e logo depois eu mergulhei num sono tranqüilo. Um sono que durou poucas horas, visto o problema da tosse, mas do qual acordei tão bem como há meses não sentia... (João Álvares - da Academia Bauruense de Letras - cadeira n.º 17)