Os reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru estão tendo aulas sobre noções de direito. O programa Direito e Cidadania, idealizado pelo professor Evandro Dias Joaquim, da Universidade Paulista (Unip), é realizado semanalmente, sempre aos sábados.
As aulas, previstas para terminar em maio, são ministradas por dois alunos do curso de direito da Unip, Rogério Santos Zacchia e Elisângela Lorencetti Ferreira.
Ontem, os reeducandos tiveram o segundo contato com os professores. “A participação deles é voluntária, mas já houve um aumento significativo. O número de presentes subiu de 27 para 40â€, afirma Zacchia.
Para ele, o programa tem possibilitado uma troca de experiências importante. “Eles demonstraram muito interesse e têm feito muitas perguntas. O interessante é que eu também acabo aprendendo muita coisa com eles.â€
Ferreira diz que tem se surpreendido com o nível das perguntas. “Os reeducandos demonstraram um grande conhecimento das leisâ€, explica a professora. Na aula deste sábado ela falou sobre o poder familiar e passou a maior parte do tempo respondendo a perguntas.
O reeducando Evandir Aparecido Fernandes afirma que o curso ajuda também na auto-estima. “Foi uma das coisas que me motivou a freqüentá-lo. Além disso, os temas abordados são sobre problemas que eu encontro na minha própria família.â€
Para o reeducando Iranei Generozo, o novo Código Civil despertou nele o interesse pelas aulas. “Estou aproveitando para me atualizar e os professores estão correspondendo a todas as minhas expectativas.â€
Um dos casos mais curiosos é o do reeducando Nivaldo da Silva Savagin. Ele está preso há 29 anos e quando cumpria pena em Tremembé conseguiu ser aprovado no vestibular de direito da Universidade de Taubaté. “Eu cursei o primeiro ano e depois vim para Bauru. Espero poder trancar a matrícula este ano e depois retomar os estudos.â€
Ele disse que o interesse pelo direito vem de longe. “Eu me inspirei em Nelson Mandela, que conseguiu estudar enquanto estava preso e depois virou presidente da África do Sul.â€
Ação concreta
Evandro Dias Joaquim, que teve a idéia de criar o programa, afirma que a sociedade reclama da maneira como o Estado trata a questão penal, mas não oferece sugestões para melhorar o quadro. â€œÉ necessário propor idéias e participar mais para que algo mude. Estamos tentando dar a nossa contribuição.â€
Ele diz também que o curso é uma ótima oportunidade para reeducandos e alunos de direito. “Os reeducandos que estão prestes a ganhar a liberdade recebem informações que vão ser muito úteis quando eles estiverem deixando o IPA definitivamente. Já os alunos ganham a chance de ter contato com uma realidade que eles não conheceriam se não estivessem lá.â€
Joaquim participou na semana passada da aula inaugural, ao lado da professora Maria Heloisa Mello Crivelli, que também coordena o programa.