08 de julho de 2026
Saúde

Hemonúcleo despreza 18% das doações

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A diretora do Hemonúcleo de Bauru, Telma Cristina de Freitas afirma que cerca de 18% das doações recebidas mensalmente pelo banco de sangue são desprezadas. Ela explica que para oferecer total segurança ao receptor, é preciso garantir que a margem de erro dos exames seja zero. Para isso, os testes utilizados são ultra-sensíveis e qualquer indício de contaminação é suficiente para que o doador seja excluído.

“Nossa função é proteger o receptor. Por isso, os exames do banco de sangue não podem, nunca, ter resultados falso-negativos. Por questões de segurança, nós aumentamos a sensibilidade dos testes e isso dá margem à ocorrência de falsos-positivos”, observa.

O infectologista e patologista clínico Marcelo Pesce Gomes da Costa esclarece que os exames de laboratório podem ser divididos em dois grupos: os de sensibilidade e os de especificidade. O teste de sensibilidade localiza tudo aquilo que tem determinada característica. O de especificidade analisa cada componente detalhadamente em busca de uma única característica.

“Imagine que você está observando pedestres pela janela. O exame de sensibilidade diria que todos aqueles que têm cabelos compridos são mulheres, mas nós sabemos que alguns homens também têm cabelos compridos. O teste de especificidade iria observar outros detalhes, como o jeito de andar, por exemplo”, compara.

A diferença, segundo ele, é que nos testes de sensibilidade é possível identificar a característica procurada muito mais rapidamente, num volume maior de “pessoas” - seguindo o exemplo dado por ele. “Já no teste de especificidade, você vai observar cada pessoa individualmente. Mas enquanto você examina um, dezenas de outros pedestres podem estar passando do outro lado da rua”, continua.

Costa salienta que quando um médico solicita um exame de laboratório, os testes realizados são de especificidade, ou seja, a intenção é descobrir se o paciente tem ou não alguma doença. O banco de sangue procura um sangue puro, então ele realiza testes sensíveis - qualquer característica diferente, por menor que seja, já é motivo de exclusão.

No caso da pedagoga e da manicure citadas na página anterior, Freitas explica que o exame delas provavelmente encontrou anticorpos para o vírus HBC (hepatite C) e não o vírus, propriamente. O vírus seria sinal de uma possível doença, mas o anticorpo só indica que, em algum momento da vida, o paciente teve um contato com um dos vários tipos de vírus causadores da hepatite.

“Muitas vezes, esse contato foi tão pequeno que a pessoa não chegou a manifestar a doença. O organismo reagiu sozinho. Ao reagir, ele deixou os anticorpos. Mas como o banco de sangue precisa de segurança total, a presença dos anticorpos é suficiente para que aquele sangue seja descartado”, justifica.

Normas técnicas

Freitas salienta que todo o funcionamento do hemonúcleo é regido por normas técnicas devidamente estabelecidas por lei. “Cada bolsa de sangue coletado passa por vários exames e todos os resultados são confirmados por dois profissionais”, explica.

Segundo ela, o sangue usado nos testes é retirado da própria bolsa para evitar a coleta de amostras separadas. Para algumas doenças são realizados dois ou mais testes diferentes, como é o caso do HIV/aids (duas técnicas), doença de Chagas (duas técnicas) e hepatite (quatro técnicas). Quando um profissional termina um exame, outro profissional confere aquele resultado.

A médica comenta que muitos procedimentos já são realizados por computador, sem o contato humano permanente. Outros procedimentos também tendem à automatização a curto prazo.

“Mas as pessoas precisam ter em mente que o banco de sangue não é um laboratório comum. A checagem que fazemos é diferente dos testes realizados por eles. Nosso objetivo não é fazer diagnósticos, mas sim garantir sangue puro ao receptor”, destaca.

Segundo ela, quando um doador apresenta resultado positivo para qualquer doença, o sangue é obrigatoriamente desprezado e a pessoa é orientada a procurar um serviço de saúde para fazer um diagnóstico específico e, se necessário, um tratamento.

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Comunicação inadequada

Além dos resultados falso-positivos, a manicure Wanda Lima e a pedagoga que pediu para não ser identificada reclamam da forma como foram comunicadas pelo banco de sangue de que não poderiam ser doadoras. Elas salientam que a carta só informava que elas não poderiam ser doadoras e pedia que elas comparecessem ao hemonúcleo.

Além do pânico causado pela possibilidade de que estivessem contaminadas por uma doença grave e incurável, a falta de uma informação específica gerou desconfianças e conflitos conjugais sérios.

“Além disso, eles não me explicaram direito o que era hepatite, disseram que eu tinha um anticorpo, não explicam direito o que isso significa, que doença é essa, o que poderia acontecer, o que eu deveria fazer”, lamenta a manicure.

Questionada sobre isso, a diretora do Hemonúcleo de Bauru Telma Cristina de Freitas esclarece que também há legislação específica nesse sentido. “Não podemos especificar o problema na carta porque se o comunicado cai em mãos erradas podemos ser processados pelo paciente por quebra de sigilo. Os resultados têm que ser dados ao paciente pessoalmente”, alega.

Quanto às orientações ao paciente, Freitas defende que todos os doadores são devidamente informados e orientados. “O que acontece é que eles ficam tão nervosos que você explica e eles não escutam. É comum a pessoa voltar depois de um tempo porque não entendeu direito”, argumenta.