Cátia só escreveu “Dona de Casa†, quando se viu do outro lado e percebeu que não tinha o menor talento para o lar, assumiu o mea culpa por muitas vezes menosprezar o trabalho doméstico.
Separada há dois anos, ela jura que jamais será dona de casa. “Eu tenho a maior admiração por essas mulheres, executivas do lar. Não sei cozinhar quase nada. Dependo essencialmente de empregada, mas supervisiono se as coisas estão funcionando.â€
Para ela, a mulher é como uma empresa que tem que ser parceira dos filhos e maridos. Mas são raríssimos os casos em que há divisão de tarefas domésticas e praticamente inexistentes aqueles com o reconhecimento do marido, que pode ter em casa uma dona profissional, daquelas que administra tudo, da reforma às compras de supermercado, resolve muito por telefone, acompanha a agenda dos filhos e ainda tem tempo para a academia.
Em tempo, a dona de casa amadora é aquela que mais parece madame que, mesmo sem condições, necessita de alguém que resolva a vida por ela, pois não tem noção de como funcionam os utensílios, se desespera quando algo quebra, mas gosta de uma casa bonita, limpa e arrumada. As modernas já se libertaram de copiar receitas e não passam mais as tardes tranqüilamente deitadas, assistindo filmes.
“Eu sou favorável à mulher sair de casa, trabalhar, ser independente, ter seu próprio dinheiro. Mas você ser dona de casa por um momento, ou por opção, não significa que ela seja omissa, passiva e totalmente dependente do marido.â€
O grande problema citado pela autora é quando a mulher pára no tempo e no espaço. Tirando isso, elas são fundamentais para o equilíbrio da família.
E para estar equilibrada consigo mesmo, independente da opção que fez, chegou a hora da mulher fazer uma nova revolução que resgate o feminino: o carinho, cuidado, afeto e a delicadeza.
Sem perceber a Amélia, que virou Mulher Maravilha corre o risco de se tornar Gata Borralheira e viver num abismo de carência, na ânsia de ser Cinderela.
Mesmo sonhando com um príncipe, a mulher tem que entender que o homem é diferente dela e aprender a ceder. Sem concessão não há relação, comenta a jornalista, contando que a atriz Betty Faria só depois de muitos relacionamentos descobriu, por exemplo, que levar o marido à porta e lhe dar um beijo de despedida é uma prática prazerosa.
“Embora elas não admitam e digam que todos os homens são sapos, a necessidade de afeto é muito grande. As mais modernas não assumem, mas a mulher vai estar procurando um grande amor. Afinal, uma paixão está na composição química, biofísica, histórica e cultural da gente.â€
A autora durante a composição de “Absolvendo Cinderela†percebeu que este príncipe não tem um perfil nitidamente traçado, mas revela que a maioria, embora não assuma, espera um homem provedor, sim.
Um homem que seja bonitão, bem-sucedido e que dê segurança. As mais bem-sucedidas, com a objetividade e a rudeza masculinas que ainda não foram totalmente eliminadas, dizem que querem apenas um companheiro.
“A gente já aprendeu e conquistou muito. Agora, é preciso refazer o caminho trazendo os valores femininos que foram renegados pelas próprias mulheres na ânsia de se afirmarem como mulherâ€, finaliza.
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As donas de casa
“Parei de trabalhar, mas não virei dondoca, não embuchei e não emburrei.â€
(Nádia Lippi, atriz e dona de casa, mãe de dois filhos)
“Acho ridículo esse preconceito contra a dona de casa, como se ela fosse uma cidadã de segunda classe. A dona de casa é o ponto de equilíbrio da família, é ela quem propicia o bem-estar de todos. É uma das artes da vida, porque esse bem-estar retorna para ela, para a família, para o País, para o mundo. Imagino que, no lar do futuro, seja interessante se retomar esse ambiente doméstico agradável, essa sensação de estar com a casa em ordem, que a minha geração (de mulheres) desaprendeu. Tomara que isso volte numa boa.â€
(Daniela Thomas, casada, uma filha, cenógrafa e diretora de cinema)
“A mulher deveria ter um ordenado como esposa e dona de casa. Não é justo ser considerada dependente do marido porque ela faz mil coisas em casa e dá condições para a família trabalhar, estudar e tudo o que é necessário para o equilíbrio doméstico. Sou do tempo em que a gente comprava galinha viva, esquartejava, depenava e só então cozinhava; que encerava o chão com o esfregão e lavava as fraldas na mão, porque não existia a fralda descartável. Hoje, a dona de casa tem máquinas de todos os tipos para fazer os serviços domésticos. Ela se poupa mais. As mulheres antigas eram mais abnegadas. Não existe mais essa paciência, essa dedicação, por isso há tanta separação entre os casais.â€
(Zélia Gattai, viúva, dois filhos, dona de casa e escritora, era secretária do marido Jorge Amado)
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Afinal, o que querem as mulheres?
“A mulher quer achar um caminho, que não seja aquele com o qual a gente se iludiu e fantasiou que fosse, que é o caminho masculino. Tivemos que criar um amor muito grande por nós mesmas e um ódio pelos homens para sobreviver e nos afirmar. A gente ficou com medo das coisas mais simples da vida. Agora chega. É hora de perdoar, abrir o coração. Eu acredito nisso e descobri que na “cesta básica†da minha vida tem que ter muito amor, proteção, carinho, respeito, concessão e cumplicidade. Sem isso não tem a menor graça.â€
(Maria Carmem Barbosa, 53 anos, casada, roteirista e escritora bem-sucedida, moderna, independente e ousada)
“A gente não vai mais abrir mão do nosso mercado de trabalho. Isso é uma conquista definitiva. Dependência, já basta a afetiva. E a gente sabe que a dependência econômica é a causa de vários problemas, inclusive a violência contra a mulher. O homem é o teu dono se te banca financeiramente. Mas, por outro lado, a mulher gosta de se sentir protegida, amada, e nunca esteve tão difícil encontrar um parceiro. Estamos procurando almas gêmeas, deuses na cama, perfeitos no sexo, perfeitos de cabeça, tanto os homens quanto as mulheres. Nós, mulheres, saímos daquela fase de só engolir sapo para uma idealização sem medidas. Existe muita frustração. Você sai de um casamento com a ilusão de que o próximo vai ser melhor. Estamos exercendo uma coisa à qual não tínhamos direito: entrar e sair de uma relação. Mas ainda é como se fosse um brinquedo novo, porque estávamos há um tempão engolindo casamentos estipulados pelos pais.â€
(Patrícia Travassos, 48 anos, casada, atriz e roteirista, independente, ousada, moderna e bem-sucedida)
“Muitas mulheres acham um absurdo essa idéia de largar o trabalho pela família. Dizem que a gente lutou tanto para sair de casa e agora vai fazer o caminho inverso? Mas eu acho que quando a luta transforma o direito em obrigação, é porque passou do ponto. Antigamente, se alguém dissesse que não queria casar e ter filhos, era uma exceção. E, hoje, todas têm que fazer faculdade, seguir carreira, ter sucesso profissional e não necessariamente casar. Não é também uma camisa-de-força?â€
(Sônia Francine, apresentadora de televisão, colunista de jornal e comentarista de futebol)
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Absolvendo as Cinderelas...
“Acho que a mulher ficou negando tanto os sentimentos, achando que tudo é machista e careta, que acabou se enforcando com a própria corda. Hoje, ela está sozinha e não sabe se dividir, ser atenciosa. Não reconhece o seu lado meigo, delicado, gerador. Ela ainda não sacou que tem que fazer uma revolução interna sobre a competição. A mulher derruba, é pior do que o homem para competir. Isso não dá sorte, dá câncer de mama. Não adianta ser moderna e ser tão competitiva.â€
(Betty Faria, atriz)
“Li outro dia uma matéria sobre as executivas muito bem-sucedidas que abreviaram a licença-maternidade. Achei um absurdo. É o contrário do que estão fazendo nos países desenvolvidos. Pelo amor de Deus, isso, sim, é marcha a ré, é a contramão da modernidade. Que preocupação cruel! A mulher se livra da dependência do marido para ser dependente da carreira. A tal ponto que não pode nem curtir a maternidade.â€
(Sônia Francine, a Soninha, apresentadora de televisão, colunista de jornal e comentarista de futebol)
â€œÉ complicado fazer a revolução sexual num mundo globalizado, competitivo, masculino por excelência. A mídia trata as mulheres como se elas tivessem saído da eterna infância, de um mundo leite de rosas, cashmere bouquet, Doris Day, e caído no meio dessa competição de hoje, sem vivenciar todas as etapas do processo. Tudo aconteceu numa velocidade estonteante. Acho que as mulheres já copiaram os homens, já se antagonizaram a eles e agora estão entrando numa outra fase, que é a de usufruir todo um lado feminino, intuitivo, suave e conciliador que o homem não tem. A ciência explica: o homem é focado e a mulher é multifocal. Por isso ela consegue falar ao telefone, fazer um cheque, avisar a empregada para comprar carne e fazer carinho no filho ao mesmo tempo. E pode usar essa característica no trabalho, com bons resultados.â€
(Patrícia Travassos, atriz e roteirista)
â€œÉ complicada a questão feminina hoje em dia. Tudo é decorrente de um processo de muita porrada, muito engano, muita repressão. É que nem o pé da chinesa: amarraram tanto que não podem mais tirar, porque ela vai morrer de dor. Estamos passando pela dor do pé da chinesa. Tiraram a tala da gente, e agora estamos com a dor do crescimento. Então, vamos relaxar, vamos usar essa dor para aprender, e não para sair atirando para todos os lados, como temos feito.â€
(Maria Carmem Barbosa, escritora e roteirista)