08 de julho de 2026
Geral

Tratamento na Febem divide mães

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

As mães de menores infratores internados na Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) de Bauru, cuja direção está sendo substituída, dividem-se quando o assunto é o tratamento dado aos filhos na entidade. Para algumas, os menores estão em boas condições, estudando e “ocupando o tempo” com atividades. Segundo outras, os rapazes são humilhados por funcionários e apanham.

A Febem de Bauru tem 72 vagas e começou a receber adolescentes em junho do ano passado. Na semana passada, a assessoria de impresa da instituição anunciou que Edinéa Sita Cucci, que dirigia a unidade de Bauru desde a inauguração e está afastada por responder sindicância, não retornará ao cargo.

No lugar dela deve assumir a investigadora de polícia e psicóloga Maria Aparecida Cavalheiro Bien. Na semana passada, o JC conversou com familiares dos internos, antes da visita dominical.

Em fila, as visitantes, na grande maioria mães e irmãs, contam que em dias de sol chegam a aguardar duas horas para entrar no prédio, sem banheiro ou sombra. Todas as mães levam sacolas para os menores. Dentro, apenas o permitido: bolacha salgada, bolacha doce sem recheio, chocolate e três maços de cigarro. Na Febem, os rapazes só estão autorizados a fumar quatro vezes ao dia.

Além disso, os parentes levam materiais como papel sulfite e papel crepom para os trabalhos manuais dos menores - uma mãe lamentava que teve de gastar R$ 15,00 só com esses produtos. “Para ele (o filho) ocupar a cabeça”, diz.

Algumas visitas declaram se sentir humilhadas durante a revista pessoal antes de entrar na Febem. Elas “tomam um pelado”, como se diz na gíria carcerária. Isso significa que as mulheres - e homens - precisam ficar completamente nus e se agacharem, para evitar a entrada de celulares e, principalmente, drogas no interior do prédio.

Reeducação

Para as mães, no entanto, pior que o sentimento de humilhação em esperar horas sob o sol e passarem por revista íntima, é perceber que os filhos estão lá para serem “reeducados” pela Febem - isto é, o Estado refazendo a função que, na teoria, caberia a elas.

“Nós não temos culpa do que eles fazem na rua. Estamos trabalhando”, afirma a cozinheira Márcia, que diz ter sentido um “choque” quando soube da prisão do filho de 17 anos (hoje com 18). Ela, que estava acompanhada de sua filha de 8 anos, conta que seu filho trabalhava e estudava, mas foi preso após uma briga em um baile. Está na Febem há nove meses.

Márcia, porém, conta que seu filho nunca reclamou de agressão por parte dos funcionários da Febem. Segundo ela, o problema seria os menores de fora de Bauru, transferidos de “unidades-problema” de São Paulo. “A Febem de Bauru estava virando bagunça. As crianças estavam tendo muita liberdade com os funcionários”, diz.

Na madrugada em que o filho de Márcia foi preso, mais quatro rapazes estavam com ele na briga. O filho da doméstica Vânia era um deles. Ela também diz que ficou em choque quando soube da prisão. “A gente fica preocupada porque é um filho que nunca deu trabalho. Agora que a gente está se recuperando”, conta.

Segundo Vânia, seu filho, de 17 anos, afirma que os monitores da Febem tratam-no bem. “Nunca bateram nele. Os (menores) de fora que estavam aqui é que eram rebeldes”, diz.

Outra mãe, Irene (nome fictício) admite que o filho, de 18 anos, “não é santo”. Há quase um ano e meio o rapaz foi preso por tentativa de homicídio e mandado para uma unidade da Febem em São Paulo. Em liberdade assistida, o rapaz cometeu nova infração e voltou à fundação, agora na unidade de Bauru.

Irene relata que recentemente, o filho ainda apresentava pontos na cabeça, resultado de uma suposta agressão. “Entraram na Diju, na cela, bateram no meu filho e ele levou ponto na cabeça”, declara. E completa: “Ele está aí para se recuperar, não para ser espancado”.

Uma outra mãe, Ana (nome fictício), conta que o filho de 17 anos, preso há seis meses por tentativa de homicídio, reclama de situações em que é ridicularizado. Segundo ela, o rapaz nunca comentou sobre espancamento, mas diz que é obrigado a imitar a coreografia de danças como a da “Egüinha Pocotó”.

No portão de entrada da Febem, a reportagem encontrou a dona de casa Marlene, que comia um pão com a neta e a sobrinha, aguardando o início da visita. Ao contrário das demais, domingo é dia de Marlene encontrar dois de seus filhos presos na Febem.

Do mais velho, de 17 anos, ela conta que o rapaz foi apreendido por acaso, porque estava andando com foragidos da instituição. Perguntada sobre o motivo do mais novo, de 15 anos, estar internados, Marlene responde que foi um “caso de 157” (roubo).