A direção da unidade de Bauru da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) saiu das mãos de uma pedagoga para ser comandada por uma policial. A investigadora e psicóloga Maria Aparecida Cavalheiro Bien substituirá Edinéa Sita Cucci, que foi afastada provisoriamente de sua função, mas não será reconduzida ao cargo. O nome foi confirmado ontem pela assessoria de imprensa da fundação e publicado no sábado no Diário Oficial do Estado.
Embora ainda não exista uma data oficial para a posse, informações extra-oficiais dão conta de que ela já assumiu as atribuições de diretora e que teria se reunido com os funcionários na tarde e na noite de ontem.
Apesar de Bien integrar o quadro funcional da Secretaria de Segurança Pública há mais de 20 anos, o que pode dar pistas de como será conduzida a nova administração, nem as autoridades ouvidas pelo JC nem a própria Febem arriscam dizer explicitamente o que se espera da nova diretora.
“Ela deve ter sido nomeada devido ao seu currículo. Ela é sensata, tranqüila e consciente dos problemas que deve enfrentar. Quando fui consultado sobre sua indicação, apenas informei que não havia nenhum impedimento. A mim coube apenas abrir mão dela para que pudesse desempenhar outra função. Acho que vai dar certo porque ela é psicóloga e já trabalhou com menoresâ€, explica o delegado seccional Antonio Ângelo Ciocca.
Ele, que poderia ser mais enfático sobre a postura da nova direção da unidade, apenas ressaltou que a indicação não partiu dele. Por acompanhar o trabalho que a investigadora desenvolvia na Delegacia da Infância e Juventude (Diju), onde atuava até a nomeação, Ciocca seria um dos mais indicados para tecer comentários mais precisos.
Desconhecida
As outras fontes ouvidas pelo JC alegam desconhecer o trabalho da policial, reservando o direito de não julgar a troca de comando.
“Tenho notícia sobre ela, mas não a conheço. Sei que é policial e acho uma boa indicação. Espero que ela faça uma boa gestão. É uma missão árdua, mas não tenho como opinar sobre a nomeação porque não sei o que está acontecendo a fundo na Febem. Sabemos através da imprensaâ€, coloca o coordenador operacional do 4º Batalhão de Policiamento Militar do Interior (4.º BPMI), major Pedro Batista Lamoso.
Mais evasivo é o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, que garante estar na condição de espectador. “Conheço a investigadora de vista. Não acompanho seu trabalhoâ€, garante.
Postura semelhante tem o promotor de Infância e Juventude da área infracional, Onilandi Santino Basso, que não tem certeza de conhecê-la. “Por enquanto não posso opinar. A própria Febem é muito jovem até para um posicionamento sobre o que esta acontecendo lá. Não tinha restrições com o trabalho desenvolvido antesâ€, explica.
Ponto de vista idêntico tem a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Sandra Cristina Ferreira, que se reservou no direito de não se manifestar para não assumir posição precipitada.
Psicologia
A investigadora é graduada desde 1995 em psicologia na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde conseguiu habilitação ao desenvolver projeto de final de curso junto aos menores internos da Sociedade Beneficente Cristã (Paiva), onde permaneceu como voluntária por cerca de cinco anos.
Fez especialização em terapia cognitiva (abordagem que ressalta o pensamento e a interpretação), clinicou por dois anos consecutivos especialmente na área da adolescência e ministrou palestras sobre relações humanas até em penitenciárias, com enfoque aos funcionários.
Conforme o JC publicou na edição de sábado, em entrevista recente concedida quando um ex-jogador de futebol do Noroeste foi à Diju dar testemunho de vida aos infratores apreendidos, Bien ressaltou a importância de se recuperar a auto-estima dos menores.
“A sociedade deveria oferecer a eles a oportunidade de descobrir a capacidade que têm. O que eles precisam, muitas vezes, é confiar em alguém e falar, mas normalmente as pessoas não têm tempo para ouvi-los. A idéia é que esses adolescentes substituam crenças ruins por outras boasâ€, disse na época.
O depoimento pode indicar que psicologia e rigor devem estar relacionados entre as exigências definidas pela diretoria da Febem para nomeá-la.
A assessoria da Febem apenas confirmou que os critérios para a nomeação foram capacitação técnica e compromisso com a proposta da unidade.
A antecessora de Bien, a pedagoga Edinéa Sita Cucci, enfrentou fugas, rebeliões e denúncias de maus-tratos. Também responde pela acusação de improbidade administrativa na Comissão Permanente Processante da Febem e na Justiça comum. Por essa razão, foi destituída.