08 de julho de 2026
Articulistas

A nova superpotência


| Tempo de leitura: 3 min

Na manhã depois das manifestações simultâneas contra a guerra, as maiores já realizadas, com mais de 10 milhões de pessoas em 600 cidades de todos os continentes - em uma análise publicada em sua primeira página - o The New York Times (NYT) fez chamativa afirmação: “Agora, há duas superpotências, EUA e a opinião pública mundial. O presidente Bush enfrenta cara a cara um novo adversário... com um novo poder nas ruas”, acrescentou o NYT. Nem mesmo em seus momentos de maior êxito os ativistas cívicos jamais puderam imaginar que seus muito limitados esforços poderiam alguma vez dar-lhes a condição de superpotência que o jornal lhes confere.

Embora George W. Bush nada tenha feito de construtivo em seus calamitosos dois anos no cargo, sem querer desencadeou um tipo de movimento tectônico mundial. Um novo superpoder cívico está surgindo para desafiar a primazia das elites mundiais. Ao praticamente ameaçar a todos, o presidente Bush acelerou o pulso de nossa paixão coletiva pelo que ainda nos importa. Este processo não aconteceu de um dia para outro. Um realinhamento fundamental de interesses e de identidade já estava em andamento há duas décadas.

O debate mundial, sobre se deve-se permitir ao governo Bush atacar o Iraque, está acelerando o afastamento da cidadania das elites dirigentes e provocando um realinhamento histórico. A nação-estado, que por vários séculos manteve a lealdade dos cidadãos para com “Deus e a Pátria”, está sendo substituída por uma nova identificação entre cidadãos comuns e seus movimentos sociais ad hoc, através de todas as nações e das fronteiras étnicas, muito comumente em oposição às políticas de seus próprios governos.

As maquinações das elites mundiais em nome de estreitos interesses de classe abriram uma profunda brecha entre os dirigentes e seus povos. O que uma coercitiva Internacional Comunista nunca pôde obter através da conspiração, as elites dirigentes globais estão conseguindo através de políticas notoriamente adotadas em seu próprio benefício que, de fato, estimulam entre diferentes pessoas de todo o mundo uma solidariedade supranacional que transcende a geografia, as etnias e as ideologias.

Estamos diante de um fenômeno até agora sem precedentes nos assuntos humanos: o surgimento de um interesse público global com uma capacidade de lutar de igual para igual contra os grandes poderes do planeta. Entretanto, antes de celebrar este momento de ruptura e avanço, os ativistas cívicos devem se confrontar com as continuadas fraquezas de seu recém-obtido vigor.

O atual consenso mundial contra o governo de Bush foi desencadeado pela inepta execução da agenda por parte de uma elite global, até pouco tempo altamente disciplinada em suas técnicas de exploração. Ao mesmo tempo, a espontaneidade sem lideranças dos primeiros dias dos movimentos sociais, talvez logo possa ser substituída pelo surgimento de líderes cívicos que poderiam se converter em elites entrincheiradas em suas posições. Sustentar um democrático e duradouro “superpoder cidadão”, capaz de moderar os excessos da elite superpoderosa, requer um esforço permanente, claridade de propósitos e eterna vigilância contra tentações totalitárias surgidas de dentro para fora. (O autor, Mark Sommer, é jornalista norte-americano)