09 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Bagdá vira cidade-fantasma


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Bagdá - Vento, poeira, nuvens escuras e um sentimento sombrio tomaram conta de Bagdá ontem, à medida que o prazo dado para uma invasão norte-americana se esgotava. A Capital iraquiana de 6 milhões de habitantes, que ainda na segunda-feira exibia uma movimento frenético, parecia uma cidade-fantasma. Todos estão à espera do ataque. Empresas, escolas e até farmácias fecharam. A maioria das pessoas ficou em casa.

O ultimato norte-americano para que Saddam Hussein deixe o país e evite a guerra terminou às 4h de hoje (22h de ontem em Brasília). Sepultada a esperança de uma resolução diplomática, os iraquianos sabem que chegou a hora da terceira guerra em 20 anos para eles. “Lamento. É como esperar alguém que vem para te matar. Pagamos caro por algo que não fizemos”, disse o engenheiro Jihad Hashem, 50 anos, que mandou quase toda a família para a Síria. “Não compreendo por que temos que passar por tudo isso outra vez.”

“Estamos contando as horas desde que George Bush deu o ultimato. Ainda temos algumas horas”, disse Jaber Abboud, 30 anos, que trabalha em um dos poucos locais que ainda vendem comida. “Espero vender a maior parte da minha mercadoria hoje (ontem), para não ter de abrir amanhã (hoje). Vou levar o resto para casa e vamos comer durante a guerra”, afirmou.

Até o tempo está contra os iraquianos. Uma forte tempestade se abateu sobre Bagdá como uma praga bíblica, colaborando com a depressão generalizada. Mesmo quem queria sair de casa não pôde, por causa da falta de visibilidade. Agarrando-se a um fio de esperança, os iraquianos torcem para que a tempestade adie o ataque, cuja primeira fase deve usar pelo menos 3 mil bombas e mísseis de grande precisão.

Trincheira em casa

A maioria dos iraquianos diz que ainda não se recuperou dos efeitos traumáticos da guerra contra o Irã (1980-88) e da Guerra do Golfo (1991). Ao todo, centenas de milhares morreram nesses conflitos. “Nosso medo cresce a cada hora. Todas essa poderosa preparação de tropas contra um país como o nosso é assustador. Eles falam sobre novas armas, sobre bombas de nove toneladas, sobre novos mísseis. É tudo amedrontador”, disse o comerciante Nasman Bahjat, 43 anos. Ele contou que montou uma trincheira dentro de sua própria casa, com sacos de areia. “Até vedei as janelas com uma fita especial para proteger a casa de um ataque químico”, disse. Depoimentos como esse mostram que em Bagdá convivem, cada vez mais, dois mundos: um é o dos pronunciamentos oficiais, que continuam a desafiar os Estados Unidos; o outro é o da população civil, cansada das guerras.

O único sinal de vida normal - algo surreal - pode ser visto no ministério da Informação, onde funcionários dão os últimos retoques em um anexo que deve ser inaugurado na próxima semana. Ontem, o ministro da Informação, Mohammad Saeed Al Sahaf, prometeu à população que o cotidiano das pessoas não vai mudar. “Não haverá toque de recolher. As pessoas podem se deslocar livremente. Todos os rumores que vocês ouvem sobre toques de recolher são infundados”, afirmou a jornalistas. (Reuters)