09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Velho Tietê esconde peixões

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

Quem sai da capital e segue para o Interior, fica surpreso ao ver que o rio Tietê ainda resiste. E com sua garra, esconde peixes como pacus, traíras, corvinas, jaús e o cobiçado dourado.

Histórias de pescarias nas águas do Tietê na região de Bariri são verdadeiros testemunhos do poder da natureza. No início do mês, pescadores de Bauru, que habitualmente pescam no Tietê, foram surpreendidos por grandes exemplares de dourado.

Dois grupos distintos de pescadores tiveram sucesso na pescaria. Tralhas diferentes, mas com muitas coisas em comum, a principal delas o amor pelo rio.

Aurélio Aparecido Caçador tem 38 anos e pesca no Tietê há mais de 20 anos. Conhecedor de diversas fases do rio, o pescador arrisca na sorte em dias de pescaria. “Para mim, estar no rancho, na beira do rio, é como ir ao psicólogo. Na cidade, é só preocupação, lá, crio galinhas, pesco e descanso a cabeça.”

Pelo menos uma vez por semana, ele pega a esposa Rita de Cássia e vai para Bariri, onde encontra paz. “Quando compramos o rancho, há oito anos, ela não gostava de ir. Agora ela briga se, por algum motivo, não puder ir para lá”, comenta o pescador.

Da mesma forma, o pescador Cleber César Osório, 30 anos, segue todas as semanas para o rio Tietê, em Bariri. “Levo minha esposa Rosangela, meus filhos Joice, 12 anos, e Lucas, 6 anos, e vamos pescar. Vamos em busca do lazer fora da cidade, ficar longe dos problemas e dor-de-cabeça”, diz o pescador.

Apesar de não se conhecerem, Caçador e Osório fazem o mesmo alerta: â€œÉ preciso cuidar do rio Tietê. Ele está sofrendo com a poluição. Vai ser difícil conseguir resistir por muito mais tempo ao despejo de esgotos, lixo de visitantes e ao desmatamento”.

Eles temem que em poucos anos não haverá mais peixe para contar a história. “Antes, a gente encontrava grandes corvinas, agora só pega pequenas. Isso porque o pessoal não respeita o tamanho dos peixes, não espera eles crescerem”, reclama Caçador.

Osório lembra que até as tilápias estão morrendo. “Se está difícil para a tilápia, que é um peixe forte, imagina para outras espécies. Tá trágico”, comenta o pescador.

Felicidade em dose dupla

Mesmo acompanhando dia a dia o sofrimento do rio, os pescadores não desistem e sempre esperam a oportunidade de pegar um troféu. Coincidência ou não, Caçador e Osório foram contemplados no mesmo fim de semana. Osório pegou um lindo dourado no sábado e Caçador outro no domingo.

Eles contam que havia chovido nos dias anteriores, o rio estava sujo e duas comportas estavam abertas. “Creio que isso facilitou a locomoção dos peixes”, fala Osório. Ele pegou um dourado que após a limpeza pesou 17 quilos. Além do predador, também fisgou uma traíra de 50 centímetros. “Quando vi o peixão comecei a dar risada. Há 12 anos que pesco no Tietê e nunca tinha visto um peixe daquele tamanho”, lembra o pescador.

Caçador teve bastante trabalho para pegar o seu dourado, pois estava pescando com uma linha muito leve, 0,33mm. “A minha intenção era pegar pacu, mas vi o cardume de dourado passando e não resisti. Mudei a minha isca artificial e arremessei. O peixe fisgou e briguei com ele por mais de 40 minutos. Eu tinha que deixar o bicho correr para não arrebentar a linha. Foi cansativo, mas muito gostoso”, comenta, satisfeito, o pescador.

Caçador disse também que durante a briga com o dourado, viu passar outros exemplares, inclusive um muito grande: “Acho que devia ter uns 20 quilos ou mais”. Seria o peixe do Osório? Aí já é história de pescador, pois o leitor mais atento sabe que o Osório pescou no sábado e o Caçador no domingo!

Repovoamento

Encontrar dourados com mais de cinco quilos no rio Tietê, aparentemente, não é uma surpresa. Porém, fica uma curiosidade sobre a origem desses peixes que, dificilmente, conseguem reproduzir-se na região, devido à barragem.

Osório, que pegou um exemplar bastante grande, comenta que ao limpá-lo não encontrou nenhum sinal de desova. Há quem diga que no passado foi feito um repeixamento no rio Tietê, que incluiu alevinos de dourado. Isso poderia ser uma resposta para a quantidade de dourados encontrados na região.

Outra possibilidade, que seria bastante animadora, é dos peixes estarem se reproduzindo. O que iria colaborar com a manutenção da espécie.

Mesmo assim, ainda há muito o que se fazer para proteger o rio Tietê e outros rios da poluição, desmatamento e da pesca desordenada. No ano passado, foi aprovado o Código de Pesca e Aqüicultura do Estado de São Paulo. Agora o governo federal possui a Secretaria Nacional da Pesca que cuida do assunto.

São urgentes as necessidades do setor, que envolve todos os estados brasileiros. É preciso cuidar do nosso País.