09 de julho de 2026
Articulistas

Um momento sombrio


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É difícil não sentir desesperança e impotência nesta terrível conjuntura. Milhões de pessoas no mundo lutaram com todo seu coração e sua mente para evitar a violência no Iraque. Inevitavelmente, abre-se um profundo vazio emocional quando começam a cair as bombas. Muitos rezarão. Outros, simplesmente refletirão. Inúmeras pessoas continuam saindo às ruas. Mas todos se preocupam com a extensão da destruição que se produzirá e o alcance de suas repercussões. Vimos antes outros momentos sombrios para a humanidade. Entre eles, a escravidão, o holocausto, a guerra do Vietnã. É que a desumanidade do homem não pode ser subestimada.

Na luta contra o apartheid na África do Sul passamos momentos nos quais parecia que o mundo estava acabando. A nação chorou em 1993 pelo assassinato de Chris Hani, o amplamente popular líder que muitos acreditavam que seria o sucessor de Nelson Mandela à frente do Congresso Nacional Africano (ANC). A violência irrompeu no país. As negociações constitucionais entre o ANC e o Partido Nacional (exclusivo para brancos) foram rompidas quase que irremediavelmente. Este foi o momento mais baixo de nossa luta. No entanto, a fé prevaleceu, bem como a integridade moral das pessoas comuns, para fazer o que era correto. Com isso, conseguiu-se que o apartheid chegasse ao seu fim.

Neste momento de profunda angústia, é importante reconhecer as razões existentes para a esperança e o orgulho, tanto nos Estados Unidos quanto através do mundo. Nunca na história houve tanta efusão de resistência por parte das pessoas comuns ao longo de todo o planeta antes do início de uma guerra. Milhões de pessoas adotaram uma posição. Esta doutrina de prioridade moral e social deve ser mantida. Inúmeras nações, muitas delas bastante empobrecidas, ouviram as vozes da maioria de seus cidadãos contrários à guerra. Esses governos optaram por não aceitar as enormes somas que lhes foram oferecidas para que apoiassem o esforço militar e escolheram dar atenção aos sentimentos de seus cidadãos. Neste contexto, isso foi um considerável passo à frente rumo à democracia.

Um primeiro passo para a recuperação pessoal consiste em reconhecer a profundidade de devastação que muitos de nós sentimos. Não deveríamos pretender que a mesma não exista. Também devemos olhar para a frente. As energias mobilizadas recentemente não devem ser desperdiçadas, e deveriam ser canalizadas e ampliadas. Este é o princípio e não o fim de uma vigilância ainda maior. Porque, com a guerra, as liberdades civis domésticas enfrentam sua maior ameaça. Não devemos deixar que se sufoque o direito ao protesto sob as pressões do patriotismo. Nos últimos meses a atenção do mundo está fixada na desejada perspectiva de uma solução diplomática e por meio das Nações Unidas.

Se queremos uma paz duradoura e segurança no Oriente Médio e Próximo e se queremos que a lei internacional conserve seu significado, devemos começar a exigir que as resoluções da ONU sejam aplicadas uniformemente em todos os países. Devemos começar a concentrar nossas energias nessa direção. No Iraque, devemos vigiar para fazer com que sejam honradas as promessas sobre o real funcionamento da democracia e para que se cumpra o compromisso de realizar uma reconstrução do país a longo prazo e dotada de todos os recursos que forem necessários. (Os autores, Desmond Tutu, é arcebispo e Prêmio Nobel da Paz em 1984, e Ian Urbina, é editor associado do Middle East Research and Information Project, com sede em Washington)