10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Depoimento: Diário de correspondente da guerra

Por Luke Baker | Agência Reuters
| Tempo de leitura: 3 min

Sul do Iraque - Os disparos de artilharia caíram como chuva, ao anoitecer. Clarões iluminaram o horizonte enquanto o estrondo das explosões ecoava em nossa posição, na fronteira entre o Kuwait e o Iraque. “Os fogos começaram, é hora de pegar a estrada”, anunciou o capitão Alex Deraney, comandante da 535a.

Companhia de Engenharia dos EUA. Sob suas ordens, a companhia entra nos veículos e liga os motores. O clima era nervoso, com muitos soldados ainda abalados pelo ataque iraquiano de horas antes, com mísseis Scud. Um deles caiu a cinco quilômetros de nossa posição.

Avançamos vestindo o MOPP2 - o segundo de quatro níveis de proteção contra ataques bioquímicos. Isso consiste em um macacão completo, muito quente, e máscaras a tiracolo. A cabine do veículo militar de 48 rodas estava em silêncio.

Dois soldados em frente examinavam atentamente a estrada com os óculos especiais que transformam a escuridão noturna em uma névoa esverdeada. Ao meu lado, um soldado se ocupava com sua metralhadora. Os primeiros avanços rumo à fronteira são lentos. No comboio há 2 mil veículos, inclusive tanques Abrams, carros de combate Bradley e caminhões Humvees.

O comboio parte cerca de duas horas antes da meia-noite, mas só às 5h30 de sexta-feira ele finalmente cruza a fronteira, movimentando-se vagarosamente à luz do alvorecer pela zona desmilitarizada da ONU, agora vazia, em direção à cerca que marca o começo do Iraque.

“Bem-vindo ao Iraque”, diz uma placa. Um grupo de homens em trajes tradicionais da região faz algumas fotos de nossa passagem. Conforme vai raiando, o sol ilumina a vasta planície de pasto, pedras e areia, onde não há sinal de vida. A nosso lado, tanques levantam nuvens de poeira. O comboio cruza o deserto para oeste e para norte.

Pequenos helicópteros de reconhecimento vão a nossa frente, prontos para chamarem os Apache, capazes de atacar, em caso de perigo. Ao longe, ouvimos disparos da artilharia dos EUA, mas não houve reação dos iraquianos. “Onde está todo mundo?”, se pergunta o soldado Rocky Gray, 25 anos, cada vez mais entretido com sua metralhadora.

Pouco depois aparecem alguns camelos, seguidos por vários outros e pastores de ovelhas. Aparentemente, estamos entrando em uma região de beduínos. Apesar do sol forte, eles usam túnicas pretas. Os mais velhos dos beduínos nem se mexem quando passamos, jogando poeira na sua tenda.

Os mais jovens, porém, saem correndo atrás do comboio militar. Um menino estende um maço de cigarros, na esperança de ganhar algum trocado dos soldados. Por volta de meio-dia, já avançamos cem quilômetros em território iraquiano. O sol está forte, o que faz os soldados suarem muito.

Além da proteção contra ataque bioquímico, eles levam também colete à prova de balas, capacete de kevlar, munição e uma baioneta. Só no começo da tarde passamos pela primeira aldeia, uma coleção de casas mal-conservadas, feitas de barro e tijolos, espalhadas de forma aleatória ao longo da estrada.

As crianças acenam e os adultos apenas observam, protegendo os olhos do sol. À frente deles, milhares de toneladas de equipamentos demonstram o poderio norte-americano.

Os militares fazem uma parada e eu desço. Aproveito para ouvir pela primeira vez de um iraquiano o que ele pensa de tudo isso. “As sallam alekum”, digo. Meu árabe se esgota nessa saudação tradicional, e rapidamente acrescento: “Do you speak English?”

Não, ele não fala inglês. Mas conseguimos nos comunicar com alguns gestos: os tanques norte-americanos merecem polegar para cima; Saddam Hussein, polegar para baixos. Então o homem aponta para o norte, muito longe, e diz: “Bagdá”.