11 de julho de 2026
Auto Mercado

Cinqüenta ... e uma mil utilidades

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

De moderno, ela não tem nada. Pelo contrário, é feia, desengonçada e com design e aerodinâmica pra lá de ultrapassados. Entretanto, um dia antes de completar meio século de sua existência no País, a velha e boa Kombi resiste ao tempo e, ainda, é um dos maiores sucessos de vendas da Volkswagen no Brasil.

Grande parte desse fenômeno comercial deve ser creditado ao fato da Kombi possuir, como o slogan de uma esponja de aço, mil e uma utilidades. A perua da Volks, ainda, é o veículo preferido de muitos para transportar, além de passageiros, verduras e legumes, mudanças, panfletos, jornais, revistas e uma infinidade de cargas em geral.

Para o estudioso José Luis Iemma, a Kombi resiste no mercado porque ela conservou suas características de dupla personalidade. “Ela mantém essa qualidade, mas não tanto como há algumas décadas. Como o Fusca, ela tinha seu status e transportava a família para todos os eventos sociais, desde uma simples viagem até um acontecimento mais elegante”, relembra.

Entretanto, acrescenta Iemma, apesar de tais fatos não acontecerem com tanta freqüência como antigamente, hoje muitos chefes de família, principalmente pequenos camponeses, trabalhadores autônomos, feirantes e condutores de pequenas frotas, acabam adotando o veículo para a família. “O modernismo dos veículos e as facilidades para se ter mais de um automóvel fizeram ela perder um pouco essa conotação.”

Mas, para Iemma, ela continua cumprindo um papel fantástico. “Ela continua a transportar o que levava antigamente de passageiros e cargas, além de ser barata, quase não dar gastos com manutenção e ter uma grande vida útil. Exemplo disso é que podemos ver rodando atualmente Kombis da década de 60”, enfatiza ele.

Para o encadernador bauruense, a Kombi nunca teve competidores e dificilmente terá. “Muitos falam que a Volks não se preocupou em aperfeiçoá-la porque ela nunca teve concorrência saudável. Mas o que ela precisa melhorar? Para isso, terá de ficar mais cara e deixará de ser um veículo de uso misto”, considera Iemma.

Pau pra toda obra

Prova do carisma e das características multiuso da Kombi podem ser vistas nas declarações do aposentado bauruense José Cândido de Oliveira.

Mais do que um admirador, ele é um apaixonado pelo “pão de forma”. Tanto que hoje orgulha-se em dizer ser o único dono de uma perua 1975 tirada zero quilômetro direto na concessionária, que a guarda até hoje em sua garagem. “Quando ela chegou ainda fiz questão de trocar todos os pneus, pois não gostava da marca que originalmente a equipava”, lembra ele.

Oliveira conta que decidiu adquirir a Kombi para poder trabalhar com transporte escolar de crianças, atividade que dedicou quase 20 anos de sua vida. “A perua era uma novidade naquela época e, por isso, resolvi comprá-la”, afirma.

E hoje, depois de rodar cerca de 286 mil quilômetros, a Kombi continua pronta para encarar qualquer desafio. Quem garante é o aposentado, que não se cansa de enumerar, orgulhoso, adjetivos para o seu “pão de forma”. “Os únicos detalhes que não são originais são o carburador e o platinado. Além disso, tive de trocar peças do alternador somente este ano”, afirma ele.

De resto, a “kombosa” de Oliveira prima pela conservação das características de fabricação. “Nunca precisei trocar uma lâmpada. As que equipam hoje a perua estão nela desde quando a tirei da agência. Além disso, o motor não rateia. Basta por gasolina e sair rodando”, frisa o aposentado.

Oliveira define que a compra de sua Kombi foi abençoada, pois nunca envolveu-se em acidentes e sequer machucou uma criança durante a condução às escolas. “Ela também não me deixou na mão na estrada. E se isso ocorresse seria fácil consertar, pois para resolver problemas na perua basta um martelo e uma talhadeira”, exagera ele.

E para não fugir à regra de todo proprietário de Kombi, Oliveira a usa principalmente para o lazer e viagens. “Perdi a conta de quantas vezes fui a São Paulo e até mesmo para o Paraná e Rio de Janeiro. Atualmente a utilizo mais para pescar na região”, diz.

Oliveira confessa que já foi dono de outros veículos, mas “xodó” mesmo ele nutre só pela Kombi. Vendê-la é uma hipótese sequer admitida pelo aposentado. “O que ela vale hoje? Prefiro ficar com ela até morrer e agradecer a todos os pais, diretores, professores e alunos que me acompanharam e auxiliaram na minha vida profissional no transporte escolar.”

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Renovação de frota

A Kombi é presença quase que obrigatória atrás das bancas de frutas, verduras e legumes dos feirantes, que a elegeram como o veículo “oficial” da categoria.

Na atividade há quatro anos e há cinco dono de uma perua 1979, Victor Fernandes ressalta que a Kombi é o melhor veículo que poderia existir para um feirante. “Ela tem uma capacidade de transporte muito bom e seu custo/benefício é excelente. Além de econômica e ter ampla visibilidade, é fácil de dirigir e estacionar e não atola nem no barro, pois tem tração traseira”, avalia ele.

Apesar disso, Victor reconhece que sua Kombi tem lhe dado gastos com manutenção. “Mas é porque ela já está um pouco mal tratada e precisa de alguns reparos. Se ela fosse mais nova e conservada, certamente não daria dor de cabeça para o dono. Este só se preocuparia com os consertos corriqueiros exigidos pela quantidade de carga que ela carrega”, destaca.

E é justamente por essas razões que o feirante reivindica do governo a elaboração de um plano de renovação de frota para a categoria semelhante ao existente para os taxistas. “Com ele, obteríamos descontos e incentivos para, pelo menos a cada cinco anos, trocarmos as peruas. Desta forma, veículos com mais de 20 anos de uso seriam recolhidos”, argumenta Victor.

Segundo o feirante, o programa seria bom para ambos os lados. “Nós ganharíamos em rodar com um utilitário mais novo e, consequentemente, teríamos poucos gastos para mantê-lo. Já o governo passaria a arrecadar mais, uma vez que começaríamos a gastar com o IPVA”, pondera.

Francisco Carlos de Souza Martins, feirante há 20 anos, é outro que elogia a Kombi 1991 comprada há três anos. â€œÉ um veículo útil, pois cabe muita coisa, é acessível economicamente e pode ser usado para passear ou trabalhar. Não viajo com ela, mas sempre levo a família nela nas horas de lazer”, revela.

Ele conta também que, antes de adotar a perua da Volks, já foi dono de um utilitário de outra marca, mas acabou rendendo-se às virtudes da Kombi. “Ela é mais econômica e tem melhor dirigibilidade”, finaliza Francisco.