De moderno, ela não tem nada. Pelo contrário, é feia, desengonçada e com design e aerodinâmica pra lá de ultrapassados. Entretanto, um dia antes de completar meio século de sua existência no País, a velha e boa Kombi resiste ao tempo e, ainda, é um dos maiores sucessos de vendas da Volkswagen no Brasil.
Grande parte desse fenômeno comercial deve ser creditado ao fato da Kombi possuir, como o slogan de uma esponja de aço, mil e uma utilidades. A perua da Volks, ainda, é o veículo preferido de muitos para transportar, além de passageiros, verduras e legumes, mudanças, panfletos, jornais, revistas e uma infinidade de cargas em geral.
Para o estudioso José Luis Iemma, a Kombi resiste no mercado porque ela conservou suas características de dupla personalidade. “Ela mantém essa qualidade, mas não tanto como há algumas décadas. Como o Fusca, ela tinha seu status e transportava a família para todos os eventos sociais, desde uma simples viagem até um acontecimento mais eleganteâ€, relembra.
Entretanto, acrescenta Iemma, apesar de tais fatos não acontecerem com tanta freqüência como antigamente, hoje muitos chefes de família, principalmente pequenos camponeses, trabalhadores autônomos, feirantes e condutores de pequenas frotas, acabam adotando o veículo para a família. “O modernismo dos veículos e as facilidades para se ter mais de um automóvel fizeram ela perder um pouco essa conotação.â€
Mas, para Iemma, ela continua cumprindo um papel fantástico. “Ela continua a transportar o que levava antigamente de passageiros e cargas, além de ser barata, quase não dar gastos com manutenção e ter uma grande vida útil. Exemplo disso é que podemos ver rodando atualmente Kombis da década de 60â€, enfatiza ele.
Para o encadernador bauruense, a Kombi nunca teve competidores e dificilmente terá. “Muitos falam que a Volks não se preocupou em aperfeiçoá-la porque ela nunca teve concorrência saudável. Mas o que ela precisa melhorar? Para isso, terá de ficar mais cara e deixará de ser um veículo de uso mistoâ€, considera Iemma.
Pau pra toda obra
Prova do carisma e das características multiuso da Kombi podem ser vistas nas declarações do aposentado bauruense José Cândido de Oliveira.
Mais do que um admirador, ele é um apaixonado pelo “pão de formaâ€. Tanto que hoje orgulha-se em dizer ser o único dono de uma perua 1975 tirada zero quilômetro direto na concessionária, que a guarda até hoje em sua garagem. “Quando ela chegou ainda fiz questão de trocar todos os pneus, pois não gostava da marca que originalmente a equipavaâ€, lembra ele.
Oliveira conta que decidiu adquirir a Kombi para poder trabalhar com transporte escolar de crianças, atividade que dedicou quase 20 anos de sua vida. “A perua era uma novidade naquela época e, por isso, resolvi comprá-laâ€, afirma.
E hoje, depois de rodar cerca de 286 mil quilômetros, a Kombi continua pronta para encarar qualquer desafio. Quem garante é o aposentado, que não se cansa de enumerar, orgulhoso, adjetivos para o seu “pão de formaâ€. “Os únicos detalhes que não são originais são o carburador e o platinado. Além disso, tive de trocar peças do alternador somente este anoâ€, afirma ele.
De resto, a “kombosa†de Oliveira prima pela conservação das características de fabricação. “Nunca precisei trocar uma lâmpada. As que equipam hoje a perua estão nela desde quando a tirei da agência. Além disso, o motor não rateia. Basta por gasolina e sair rodandoâ€, frisa o aposentado.
Oliveira define que a compra de sua Kombi foi abençoada, pois nunca envolveu-se em acidentes e sequer machucou uma criança durante a condução às escolas. “Ela também não me deixou na mão na estrada. E se isso ocorresse seria fácil consertar, pois para resolver problemas na perua basta um martelo e uma talhadeiraâ€, exagera ele.
E para não fugir à regra de todo proprietário de Kombi, Oliveira a usa principalmente para o lazer e viagens. “Perdi a conta de quantas vezes fui a São Paulo e até mesmo para o Paraná e Rio de Janeiro. Atualmente a utilizo mais para pescar na regiãoâ€, diz.
Oliveira confessa que já foi dono de outros veículos, mas “xodó†mesmo ele nutre só pela Kombi. Vendê-la é uma hipótese sequer admitida pelo aposentado. “O que ela vale hoje? Prefiro ficar com ela até morrer e agradecer a todos os pais, diretores, professores e alunos que me acompanharam e auxiliaram na minha vida profissional no transporte escolar.â€
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Renovação de frota
A Kombi é presença quase que obrigatória atrás das bancas de frutas, verduras e legumes dos feirantes, que a elegeram como o veículo “oficial†da categoria.
Na atividade há quatro anos e há cinco dono de uma perua 1979, Victor Fernandes ressalta que a Kombi é o melhor veículo que poderia existir para um feirante. “Ela tem uma capacidade de transporte muito bom e seu custo/benefício é excelente. Além de econômica e ter ampla visibilidade, é fácil de dirigir e estacionar e não atola nem no barro, pois tem tração traseiraâ€, avalia ele.
Apesar disso, Victor reconhece que sua Kombi tem lhe dado gastos com manutenção. “Mas é porque ela já está um pouco mal tratada e precisa de alguns reparos. Se ela fosse mais nova e conservada, certamente não daria dor de cabeça para o dono. Este só se preocuparia com os consertos corriqueiros exigidos pela quantidade de carga que ela carregaâ€, destaca.
E é justamente por essas razões que o feirante reivindica do governo a elaboração de um plano de renovação de frota para a categoria semelhante ao existente para os taxistas. “Com ele, obteríamos descontos e incentivos para, pelo menos a cada cinco anos, trocarmos as peruas. Desta forma, veículos com mais de 20 anos de uso seriam recolhidosâ€, argumenta Victor.
Segundo o feirante, o programa seria bom para ambos os lados. “Nós ganharíamos em rodar com um utilitário mais novo e, consequentemente, teríamos poucos gastos para mantê-lo. Já o governo passaria a arrecadar mais, uma vez que começaríamos a gastar com o IPVAâ€, pondera.
Francisco Carlos de Souza Martins, feirante há 20 anos, é outro que elogia a Kombi 1991 comprada há três anos. â€œÉ um veículo útil, pois cabe muita coisa, é acessível economicamente e pode ser usado para passear ou trabalhar. Não viajo com ela, mas sempre levo a família nela nas horas de lazerâ€, revela.
Ele conta também que, antes de adotar a perua da Volks, já foi dono de um utilitário de outra marca, mas acabou rendendo-se às virtudes da Kombi. “Ela é mais econômica e tem melhor dirigibilidadeâ€, finaliza Francisco.