09 de julho de 2026
Regional

Clima familiar garante diferencial

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Duartina - A Casa de Amparo e Proteção à Criança de Duartina, coordenada pela professora Márcia Porto, foge da estrutura impessoal própria dos grandes abrigos, e preserva as características de uma residência familiar.

O local, que tem capacidade para abrigar 12 crianças, possui nove cômodos, sendo duas salas, três quartos, dois banheiros, uma cozinha e área de serviço, além de um amplo quintal.

Mobiliado através de doações, o Lar é dono de confortável infra-estrutura, que atende as necessidades mais amplas das crianças, segundo a coordenadora. Ao todo, quatro funcionárias remuneradas trabalham na casa, com turno de oito horas. Os serviços da assistente social e psicóloga são disponibilizados pela prefeitura.

A professora Márcia Porto afirma que, além da infra-estrutura adequada, a atenção e o carinho com que são tratadas as crianças é o grande diferencial do abrigo, que procura manter o modelo de uma casa de família.

Contudo, ela ressalta que a disciplina e educação também são elementos indispensáveis para o desenvolvimento dos menores. “Muitas vezes eles chegam aqui um pouco rebeldes, sem limites e educação. E devagar, eles vão aprendendo a lidar com isso tudo”, afirma.

No local, os pequenos são submetidos à atendimento médico e psicológico. Além disso, aqueles que já possuem idade prevista, são matriculados na escola e tem o rendimento das aulas submetido a acompanhamento.

Segundo Márcia, algumas crianças chegam até ela apresentando problemas de caráter emocional ou de saúde. “As crianças chegam lotada de piolho, verme, com a barriga imensa e baixa auto-estima”, conta. Dentro desse contexto, torna-se fundamental, segundo a professora, recebe-las num ambiente de afeto e infra-estrutura adequada.

A professora explica que as crianças que vivem no local foram encaminhadas pelo Conselho Tutelar, por determinação da Justiça.

Segundo ela, o objetivo principal da casa é criar condições para que um dia esses menores retornem às famílias. “Nós queremos trabalhar os pais para que eles tenham condições de receber novamente as crianças. Se não houver chance, aí sim, trabalha-se com a possibilidade deles irem a uma família substituta. Mas tudo isso é determinado pela Justiça”, explica.

Enquanto não pode retornar para a família, a menina V., de 11 anos, afirma que tem considerado sua nova casa um verdadeiro lar. “Eu sinto falta dos meu pais, mas aqui eu tenho carinho”, afirma.

Estatuto

O estatuto da casa prevê o acolhimento de menores de zero a 12 anos, em situação de risco, órfãos, ou que sofram de maus tratos. A regra prevê ainda que o atendimento seja oferecido exclusivamente às crianças da cidade. “Só que nós já burlamos o estatuto com uma criança de 6 anos que está aqui, que é de Cabrália Paulista e vinha freqüentando a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) há muito tempo”, confessa.

Atualmente, a casa conta com sete crianças. Cada qual possui um cadastro, onde são registrados seus dados pessoais e o acompanhamento oferecido pela entidade.

Abandono

Na Casa de Amparo e Proteção à Criança de Duartina – Nosso Lar, o dia de visitas dos pais ocorre todas as quarta-feiras. Entretanto, nem todas as crianças possuem vínculo familiar, como é o caso da menina T., de 6 anos, considerado um dos mais graves da entidade. “Essa é uma criança que a família esqueceu, não vem visitá-la e não quer nem mesmo saber se ela está viva”, afirma Márcia.

T. possui problema de deficiência mental e foi encaminhada à casa pela Apae. “Ela vive caindo, fala muito pouco e tem constantes diarréias”, lamenta a professora.

Outro caso delicado registrado no Lar são de quatro irmãos, segundo Márcia, que moravam numa casa abandonada na cidade, em condições de risco. “O pai e a mãe só bebem e não possuem as mínimas condições de cuidar das crianças”, afirma.

Apesar das histórias tristes que marcam o passado dessas crianças, a professora continua acreditando num final feliz para seus ‘filhos’. E se emociona ao contar o caso de B., um menino de 1 ano, abandonado, que passou pela entidade e conseguiu ser adotado por uma boa família. “Precisou existir a entidade para ele mudar o seu destino trágico e virar um rei.”

Casa veio atender necessidade

Segundo a assistente social da Prefeitura de Duartina, Lígia Maria Bertinoti da Costa do Carmo, o Conselho Tutelar da cidade sentia a necessidade da criação de uma casa que pudesse atender crianças vítimas de maus-tratos e abandono. “Muitas vezes a gente tinha crianças que sofriam esse problema, mas a gente não tinha onde colocar”, explica.

Carmo afirma que atualmente não há números precisos de maus-tratos registrados na cidade, mas afirma que na época em que foi inaugurada a casa, levantamentos apontavam a existência de 19 casos de crianças que viveriam nessa situação. Um número bastante expressivo, segundo ela, para uma cidade de cerca de 13 mil habitantes, como Duartina.

Segundo Maurício Antônio Coneglian, presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e um dos diretores do Lar, depois da inauguração da casa houve uma redução dos casos de maus-tratos na cidade. “Algumas famílias começaram a ter mais carinho e cuidado com seus filhos para que o Judiciário não encaminhasse essas crianças para a Casa Abrigo”, afirma.

Manutenção

A Casa de Amparo e Proteção à Criança de Duartina possui diretoria e conselho fiscal e é mantida com uma verba mensal da prefeitura, no valor de R$ 2,5 mil, além de doações da própria comunidade.

Segundo a professora Márcia Porto, a entidade também está no aguardo de uma verba estadual que tem previsão para ser liberada nos próximos meses.

Para arrecadar recursos e auxiliar nas despesas, a professora explica que a entidade ainda realiza eventos. Como o primeiro desenvolvido na cidade, cujo lema foi “Se você não pode adotar uma criança, adote essa idéia.”

A professora avalia que, apesar das pedras no caminho, todo o esforço tem sido recompensado. “Se a gente for analisar, sai caro. Mas só de ver a dignidade e a vida que essas crianças estão tendo e o mundo de onde elas saíram, já vale a pena.”