Enquanto o governo do Estado briga na Justiça para se esquivar da responsabilidade de transportar os alunos do ensino médio que moram em bairros distantes da escola, o sentimento de desamparo da população cresce. Os alunos da zona rural são os mais prejudicados
É o que garante Dulcinéia Cosmo Leivico, que mora no distrito de Tibiriçá, conta que 74 estudantes da área rural deixaram de freqüentar as aulas porque não dispõem de transporte. Por ter lutado pela instalação do ensino médio na escola Major Fraga, ela acompanha o drama dos adolescentes e teme o fechamento de classes devido à redução de alunos.
“O Estado demonstra preconceito com o trabalhador rural, que é mais humilde. Enquanto isso, faz propaganda enganosa, porque alega estar preocupado com a freqüência de jovens na escola. Porém, não lhes oferece oportunidades reais. Esses trabalhadores já têm uma vida sofrida e, se depender da Secretaria do Estado da Educação, vão continuar assim. Se já é difícil para quem tem até faculdade, imagine para eles?â€, indaga.
A presidente da Associação dos Moradores de Tibiriçá também teme a redução de classes na escola Major Fraga. “O total de alunos caiu muito, quase pela metade. Hoje (ontem), eu liguei para a Diretoria Regional de Ensino e me informaram que não haviam recebido informações oficiais sobre a decisão do juiz. Diante do impasse, tem gente pedindo transferênciaâ€, explica.
É o caso, por exemplo, de Sueli Jesus da Rocha, que tirou sua filha da escola e a matriculou em outra, em Agudos. Lá, ela tem acesso garantido à escola.
“A população enxerga a importância da Educação, mas o governo do Estado, não. Por essa razão, mesmo sentindo saudades da minha filha, vou deixá-la em Agudos, na casa de parentes. Não acredito que a situação se resolva em breveâ€, desabafa.
Por não dispor da mesma alternativa, Arlindo Alves de Campos se sente humilhado e abandonado pela Diretoria Regional de Educação. O filho dele de 19 anos e a nora de 17 anos, que cursam o último ano do ensino médio, estão há mais de um mês sem cursar as aulas.
“A gente mora no mato e pertence à classe baixa, por isso não somos respeitados. Já fiz protesto, procurei todo mundo e não resolvi a situaçãoâ€, conta. Seu filho, Paulo Sérgio Alves de Campos, diz que está revoltado. “Vou arcar com um prejuízo incalculável sozinho, que trará consequências diretas para a minha vida, meu futuro. Não estou otimistaâ€, comenta.
Devido ao mesmo pessimismo, Rosana Orlandi, 16 anos, aluna do segundo ano do ensino médio, chega a caminhar uma hora para ir à aula. “A minha mãe ganha passe, mas ele não é suficiente para nós duas. Ela até recomendou que eu desistisse da escola esse ano para trabalhar, mas preferi encarar a caminhada. Quando chego na escola estou ao pedaços, desanimadaâ€, enfatiza.
Ela caminha do Núcleo Pastor Arlindo Viana (Bauru 22), até a escola Ernesto Monte, nos Altos da Cidade.
Dificuldade idêntica tirou César Augusto Souza do Nascimento do ensino médio. Ele cursava o primeiro ano no Bela Vista, mas reside no Núcleo Nova Bauru.
“Meu pai ficou desempregado e disse que não tinha mais como pagar o transporte. Recomendou que eu trabalhasse para continuar na escola, mas também não consegui empregoâ€, conclui de maneira constrangida.