10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Mídia norte-americana adota autocensura

Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Washington - A imprensa americana adotou ontem autocensura semelhante à das televisões do país e escondeu as imagens, divulgadas no domingo pela TV iraquiana, de soldados dos EUA mortos e mantidos com reféns de guerra.

Dos cinco jornais de maior circulação no país, apenas o “Los Angeles Times” reproduziu as cenas mostradas pela televisão do presidente Saddam Hussein.

Os jornais “USA Today”, “The Wall Street Journal”, “The New York Times” e “The Washington Post” não trouxeram as imagens. “Decidimos não publicar as fotos de soldados americanos mortos ou capturados porque havia questões não respondidas sobre as condições em que elas foram feitas e às identidades dos soldados. Assim, não acreditamos que poderíamos responsavelmente publicá-las”, disse Toby Usnik, diretor de relações públicas do “The New York Times”.

De acordo com o ombudsman do “The Washington Post”, Michael Gleter, “algumas das imagens talvez não devessem mesmo ser publicadas”. Procurado, o relações-públicas do “Los Angeles Times”, David Garcia, não havia explicado até o fechamento desta edição os motivos pelos quais o jornal decidiu publicar as fotos.

“São imagens que nossos inimigos estão nos mostrando. Não temos de ver isso”, afirmou Tim Graham, diretor de análise do Media Research Center, uma instituição que se autodefine como a líder em documentar, expor e neutralizar o viés da mídia liberal.

Para o pesquisador, toda vez que começa uma guerra, há sempre a discussão de que as pessoas não entendem o que está acontecendo, mas elas sabem o que é uma guerra.

Robert Jansen, professor de jornalismo da Universidade do Texas, diz que a mídia dos EUA deve até divulgar imagens negativas de seus soldados, mas não será o padrão. “Haverá resistência em publicar fotos que mostrem soldados em posição de fraqueza. É um nacionalismo errado.”

No domingo, o Departamento de Defesa enviou nota à mídia americana pedindo que não reproduzisse as imagens, sob o argumento de que precisava antes contatar as famílias dos soldados mortos e tidos como reféns. “Avisaremos vocês quando tivermos feito isso”, disse o texto do Pentágono. Antes de a discussão explodir, no domingo, a imprensa havia publicado imagens de soldados iraquianos presos pelos EUA.

A censura predominante entre os jornais de maior prestígio, porém, não foi acompanhada pelos tablóides. Em Nova York, por exemplo, o “Daily News” e o “New York Post” trouxeram na capa reproduções das fotos de americanos mortos e capturados.

No primeiro, a manchete foi: “Ultraje”; no segundo: “Selvagens”. Mesmo não publicando as imagens, os principais jornais americanos tinham ontem reportagens sobre a discussão pública travada pelas redes de televisão no domingo sobre a divulgação da fita.

____________________

Sem imagens, TV usa mãe de soldado

Já que decidiu não levar ao ar e às impressoras as imagens dos soldados mortos e capturados pelas tropas iraquianas, a mídia norte-americana transformou Anecita Hudson, mãe de um dos militares feitos reféns no Iraque, na “cara’’ da história.

No domingo, Anecita, 53 anos, estava em sua casa, em Alamogordo, no Novo México, assistindo a uma emissora de TV das Filipinas - ela é descendente de filipinos - quando entrou no ar a fita de vídeo em que seu filho aparece sendo interrogado pelas forças iraquianas. “Eu o vi e disse: Meu Deus. Olhei para ele e parecia tão assustado. Comecei a chorar’’, disse ela. “Não posso acreditar que isso aconteceu. É um pesadelo.’’

Seu filho é Joseph Hudson, 23 anos, que faz parte da equipe de apoio das Forças Armadas americanas. É um mecânico especializado em consertar caminhões.

Na TV, mostra-se calmo e não tem marcas de tortura. “Disseram-me para vir aqui. Apenas sigo ordens’’, afirma Hudson no vídeo divulgado pela TV iraquiana.

Em seguida, o interlocutor lhe faz, também em inglês, pergunta: “Por que você luta contra os iraquianos?’’. Ao que o soldado americano responde: “Eles atiram em mim primeiro, então eu atiro de volta’’.

Anecita apelou ao presidente do EUA, George W. Bush, para que ajude a libertar seu filho. “Por favor, faça alguma coisa. Não quero que ele sinta frio e fome. Apenas quero que ele volte vivo.’’

O governo americano entrou em contato com a mulher de Hudson, que em seguida falou com a sogra pelo telefone - só que, a essa altura, Anecita, por causa da TV filipina, já estava sabendo da captura de seu filho pelas forças de Saddam.