08 de julho de 2026
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Parodiando Roland Barthes, poderia afirmar que fora da palavra não há guerra. A possibilidade de tal afirmação pode ser comprovada por meio do acompanhamento da cobertura jornalística da guerra no Iraque, com os correspondentes das principais redes televisivas dos Estados Unidos a postos em tanques, helicópteros e campos de refugiados, tendo como referência as cenas de soldados norte-americanos presos respondendo a perguntas da TV estatal iraquiana, veiculadas pela TV Aljazeera, do Catar.

Até antes daqueles imagens, dois terços dos norte-americanos se mostravam favoráveis ao conflito, por acreditar que o seu país era realmente vítima do terrorismo e que Saddam Hussein, suposto patrocinador de ações de terror, trazia infelicidade ao seu povo. Vencer o Iraque seria, pois, conceder liberdade àquela população. Isso era a guerra.

Com a veiculação das imagens dos soldados presos e de corpos de alguns outros, parte da opinião pública norte-americana começou a mudar sua opinião. “Nossos meninos estão morrendo”, alardearam alguns veículos de comunicação. Alguém tinha dúvida sobre essas mortes? Parte da população dos EUA sim, porque até então sua visão sobre a guerra se amparava nos discursos de George W. Bush e de Donald Rumsfield, entre outras autoridades. Para essas pessoas, o conflito não seria traduzido por corpos empilhados ou pelo sofrimento de civis, mas nomeado pelo nobre ideal de liberdade e sustentado pelo alto poder bélico norte-americano, como a mídia não cansava de veicular por meio de animações e simulações.

Com as imagens, a guerra mudou. A população favorável ao conflito começou a perceber que havia sim uma outra guerra e ela existia fora daquelas palavras até então proferidas, porque os rostos temerosos dos soldados se transformaram também em signo, não somente em objeto, permitindo a leitura de outras novas mensagens. E uma delas aponta para a complexidade do ato de guerrear. Por isso a preocupação das autoridades norte-americanas de não permitir a veiculação de cenas dos prisioneiros norte-americanos. Por trás da suposta alegação de desaviso das famílias e da Convenção de Genebra estava a nuança da morte, morte essa cuja quantidade foi uns dos determinantes do fim da Guerra do Vietnã.

A mesma nuança transformou as imagens dos presos iraquianos. Até a manutenção do discurso anterior, eram rendições. Com o contra-argumento da Convenção de Genebra, passaram a ser prova de crimes de guerra, mais um signo/objeto.

Tais exemplos mostram o quanto a conotação via discurso é perigosa, fazendo o signo sucumbir diante da palavra, reduzindo-o à função de objeto a serviço de quem o interpreta. Com o ruído e a ampliação dos paradigmas, isso muda.

Os homens nomeiam a guerra, mas também a paz. O modo de dizer, de mostrar, é que os diferencia, e é isso que é importante compreender e comparar. Do contrário, continuaremos a reproduzir a crença de que não existe guerra fora do palavra, ou seja, que ela não ceifa vidas e não é movida – e catalisada – por interesses econômicos, apenas por supostos ideais de liberdade. (A autora, Daniela Bochembuzo, é jornalista e ombudsman do Jornal da Cidade)