09 de julho de 2026
Articulistas

Mais um erro do Banco Central


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A decisão do Banco Central de manter inalterada a taxa de juros de suas operações por um dia - a chamada taxa Selic - mas estabelecer um viés de alta - o que sinaliza sua disposição de aumentá-la em futuro próximo – enquadra-se no dito popular tão conhecido de “uma no cravo e outra na ferradura”. Diante de uma divisão clara entre os que queriam mais uma vez aumentar os juros e os que defendiam sua manutenção, o Copom optou por uma decisão marcada pela ambigüidade.

Uma corrente do mercado e da imprensa louvou a decisão, ressaltando a sensatez de nossa Autoridade Monetária diante da crise iraquiana. Para outros o Banco Central apenas seguiu a orientação do presidente Lula, de que não aceitaria mais nenhum aumento de juros em seu governo. Para não desgostar o mercado lançou mão do viés de alta como medida compensatória.

Para um terceiro grupo de analistas - que defendiam uma nova alta da Selic por conta da meta inflacionária estabelecida para o ano - o Banco Central não foi duro o suficiente em sua tarefa de combater a inflação e rendeu-se à influência política do presidente da República.

Eu e outros economistas temos uma opinião diferente sobre a ação do BC. Para nós a diretoria do Banco Central continua perdida com o sistema de metas inflacionárias implantado por Armínio Fraga, seu ex-presidente. Escravo de um sistema sem nenhuma flexibilidade para acomodar situações de choques inflacionários externos, a nova diretoria escolhida pelo governo do PT não teve coragem de, ao assumir, fazer as necessárias correções. Continuaram a trabalhar com uma meta fixa para o ano civil, misturando inflação passada com inflação futura. Assim ficaram comprometidos com uma meta para 2003 impossível de ser cumprida, mesmo que optassem por um choque de juros de proporção estratosférica.

Se deixarmos de lado a chamada inflação morta e olharmos para os próximos meses, o quadro inflacionário que se apresenta aos nossos olhos é completamente diferente do definido pelo modelo econométrico do Banco Central. Usando a projeção de inflação para o ano de 2003 do mercado financeiro e considerando a inflação já conhecida dos meses de janeiro, fevereiro e março, chegamos a numero de 5,5% para os últimos sete meses do ano. Isto corresponde a uma taxa anual de 9,6%. Embora ainda acima da meta, se considerarmos as previsões dos ultimo trimestre deste ano veremos que a inflação terminará o ano já abaixo dos 8,5% na margem.

Outra forma de entender o que estará acontecendo nos próximos meses é analisar o que vai acontecer com os juros reais no segundo semestre do ano. Com a manutenção da taxa Selic, considerando a própria previsão do mercado para a inflação futura, teremos um aumento brutal dos juros reais. Na hipótese da manutenção dos juros nominais, ele chegará a mais de 15,5% ao longo do segundo semestre.

Este aumento do juro real nas operações com títulos públicos implicará em um aumento expressivo dos juros da dívida publica, totalmente desnecessário, além de aprofundar a recessão econômica que estamos vivendo. Tudo por conta de se tentar atingir uma meta inviável, fruto de um erro de concepção inicial do sistema de metas. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)