10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Analistas acham que a guerra pode durar até mais de um mês

Agência Folha
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Doha - Atropelada por tempestades de areia, franco-atiradores e uma dose de cinismo, a campanha anglo-americana no Iraque pode levar mais duas semanas ou até um mês, de acordo com a opinião de especialistas militares. Segundo eles, o sucesso da estratégia de avançar rapidamente para o norte rumo a Bagdá, deixando algumas cidades mal guarnecidas, depende da boa vontade da população do Sul do Iraque com os invasores.

Mas essa expectativa não parece estar sendo cumprida, em parte porque a população do Sul do Iraque ainda lembra da traição que sofreu dos norte-americanos na Primeira Guerra do Golfo, em 1991.

“Eles se lembram da última vez, quando houve uma revolta em Basra e os norte-americanos não deram apoio, deixando a população à mercê das represálias de Saddam Hussein”, disse Barthelemy Courmont, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, da França.

Por causa da rapidez do avanço ocidental, alguns flancos da ofensiva estão desguarnecidos, o que permite ataques de tropas regulares do Iraque e da milícia Fedayeen em algumas cidades e no deserto.

Outro problema para Estados Unidos e Grã-Bretanha é o fato de a Turquia não ter cedido seu território para o estabelecimento de uma frente de combate no Norte do Iraque. “Isso colocou uma grande questão sobre quando eles vão conseguir cercar Bagdá. Para isso, é preciso rodear toda a cidade, e eles só vão conseguir fazer isso nos próximos quatro ou cinco dias”, afirmou Courmont, explicando que os soldados que vêm do sul terão de dar toda a volta em Bagdá para estabelecer o cerco.

Parte do problema é que a estratégia anglo-americana se baseou na expectativa de uma rebelião popular contra o presidente Saddam Hussein, o que não está acontecendo. “Acho que os estrategistas do Pentágono esperavam menos resistência. Já os militares, como o general (Tommy) Franks, devem estar menos surpresos”, afirmou Frank Umbach, analista de defesa no Conselho Alemão de Relações Exteriores. “Eles não estão sendo recepcionados no sul como alguns supunham, mas é preciso levar em conta a grande frustração dos xiitas após serem abandonados em 1991. Além disso, apesar de estarem contra Saddam, não há razão para assumir que eles estão a favor de um regime pró-americano em Bagdá”.

Na opinião de Umbach, a resistência no Sul, somada à ausência da frente Norte, vai fazer com que o conflito dure “pelo menos mais um par de semanas.”

Na atual guerra, segundo analistas, Saddam claramente alterou a postura defensiva adotada em 1991, quando suas forças foram aniquiladas em quatro dias, após 38 dias de bombardeios aéreos. “Os iraquianos perceberam que o que está em jogo é a mudança do regime, e por isso estão esperando para combater nas cidades”, disse Jacques Beltran, do Instituto Francês de Relações Internacionais.

â€œÉ claro que, no que diz respeito a Bagdá, Saddam e seu círculo íntimo vão lutar até a morte, daí isso terá um impacto no cronograma”, afirmou Beltran. Ele nota que, devido ao isolamento político de Washington e Londres neste conflito, as tropas ocidentais têm o interesse em minimizar vítimas civis, mas as dificuldades do futuro podem mudar esse cenário.

“Eles estão percebendo que a guerra com zero mortes é simplesmente impossível, e no final podem ser obrigados a recorrer a táticas de bombardeios pesados, apesar do impacto disso sobre a opinião pública.”

Já o analista russo Pavel Felgenhauer acha que até aqui tudo corre de acordo com o esperado para os EUA. “Não houve baixas dos aliados no sentido estratégico, e até agora não vi nada que tenha mudado ou vá mudar o curso da batalha. As forças iraquianas vão cair”, previu. Felgenhauer acha que esta guerra deve durar cerca de um mês.

“As unidades aliadas estão avançando rapidamente e não estão sofrendo perdas de equipamento ou pessoal que possa alterar o padrão do combate. Tudo vai acabar rapidamente.’ Nenhum dos analistas ouvidos imagina que Saddam possa ganhar a guerra. Para eles, um cessar-fogo já estaria de bom tamanho.