09 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Saddam cerca Bagdá com tropas fiéis

Por Clifford Coonan | Agência Reuters
| Tempo de leitura: 3 min

Berlim - O presidente iraquiano Saddam Hussein pode querer esmagar as forças lideradas pelos EUA em Bagdá da mesma maneira que o Exército Vermelho de Stalin derrotou os nazistas em Stalingrado, em 1943. Mas o historiador britânico Antony Beevor, autor da aclamada obra “Stalingrad”, disse que não prevê a possibilidade de a luta pela capital iraquiana transformar-se num “Bagdadogrado”.

A batalha de Stalingrado, a mais mortífera da 2a Guerra Mundial, aconteceu há 60 anos. Nela, o Exército Vermelho formou um círculo em volta de seus atacantes numa contra-ofensiva e arrancou a vitória das mãos do Exército alemão, que era tecnicamente superior.

Especialistas em Defesa apontam um possível cenário de cerco ao estilo de Stalingrado em Bagdá, como algo que poderia colocar em risco o sucesso da invasão liderada pelos EUA no Iraque.

Beevor disse que existem paralelos entre as duas batalhas, mas que a maior parte deles pode ser traçada entre Saddam Hussein e o líder soviético Josef Stalin. “Saddam está imitando Stalin. Existem semelhanças nesse sentido. Mas não parece que a batalha pelo domínio de Bagdá vá seguir o padrão de Stalingrado”.

“Pode haver um cerco breve, mas não uma batalha que dure cinco meses. E não existe chance alguma de a Guarda Republicana iraquiana cercar os invasores da maneira como o Exército Vermelho cercou os alemães, mesmo que Saddam sonhe com isso”, comentou Beevor.

Saddam é obcecado por Stalin. Ele tem retratos de Stalin na parede e possui as obras completas do ex-líder russo. Ele adoraria ver Bagdá como uma Stalingrado à beira do rio Tigre, segundo.

A rendição dos alemães em Stalingrado, em fevereiro de 1943, marcou a virada estratégica da guerra e pôs fim à tentativa de Hitler de isolar o centro do Estado soviético de seus campos petrolíferos meridionais.

As ambições de Hitler no front oriental se frustraram, e a rendição alemã acabou desencadeando a derrota. A batalha de Stalingrado ainda hoje é um símbolo poderoso de coragem e perseverança soviética durante a 2a Guerra Mundial.

Os soviéticos perderam 1 milhão de pessoas em Stalingrado, mais do que os EUA e a Grã-Bretanha em toda a guerra. A derrota dos alemães em Stalingrado aniquilou o Sexto Exército alemão.

“O Exército iraquiano não é o Exército Vermelho. O treinamento recebido pelo Exército iraquiano e pela Guarda Republicana é ultraconvencional”, disse Beevor. “Um oficial russo que os treinou me contou que não há imaginação alguma lá, que tudo o que eles sabem fazer é defender posições fixas. Isso facilitará o trabalho das forças da coalizão”, contou o escritor.

Beevor foi durante cinco anos oficial da 7.a Brigada Blindada britânica, conhecida como “Ratos do Deserto”, que está participando da guerra no Iraque.

Para ele, o bombardeio estratégico de Bagdá, voltado contra alvos específicos, mas deixando a infra-estrutura intacta, mostra que foram aprendidas algumas lições de Stalingrado. “A coalizão tem consciência de que, se achatar Bagdá como a Luftwaffe bombardeou Stalingrado, vai criar um campo de morte perfeito para suas próprias tropas”, explicou.

Durante o cerco de Stalingrado, comissários soviéticos foram enviados ao front para inspirar os soldados russos a não fraquejar na defesa da cidade e, em muitos casos, usavam força letal para impedir que se rendessem.

“Os guardas republicanos e os milicianos Fedayin não vão atuar como os comissários, mas podem aterrorizar os soldados para que não se rendam”, disse Beevor. Ele acha que seria “uma idiotice” fazer uma previsão quanto à duração do conflito.