08 de julho de 2026
Regional

Presídio se transforma em criadouro

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Iaras - Emas, capivaras, peixes, porcos, galinhas. Nem parece que estamos dentro da Penitenciária Orlando Brando Filinto, em Iaras (ao Sul de Bauru). É exatamente neste lugar que um projeto pioneiro, feito em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), está sendo desenvolvido pelos presos do regime semi-aberto.

Eles passam cerca de oito horas por dia cuidando da criação, que fica em uma área reservada. A idéia partiu do diretor do presídio, Roberto Medina, que mandou até construir uma lagoa artificial no local.

Há seis meses ele resolveu procurar o escritório regional do Ibama em Bauru, com a proposta de criar animais silvestres em Iaras. “Já tínhamos algumas espécies domésticas, mas decidimos ampliar as atividades. A dificuldade de trabalho para o preso é muito grande. Possuíamos a área e a vontade de fazer alguma coisa. Apresentamos o projeto e ele foi aprovado”, explica Medina.

“A intenção inicial é a conservação dos animais silvestres e, posteriormente, a comercialização deles”, diz o diretor. Os primeiros moradores já chegaram. São 14 capivaras e seis emas, que se juntaram a peixes, porcos, galinhas e perus, entre outros.

Segundo Medina, o aspecto mais importante está na ressocialização. “O animal resgata a afetividade dos presos que estão se preparando para voltar à sociedade. Além disso, é um novo campo que se abre para eles.”

Reprodução

O gerente executivo do Ibama no Estado de São paulo Wilson Almeida Lima, que nesta semana visitou o presídio pela primeira vez, disse ter ficado surpreso com a estrutura que encontrou. “Tanto que a nossa intenção é ampliar o projeto, trazendo para cá mais animais e pensando na reprodução deles, o que incentivaria a formação de um criadouro que pudesse servir até de fonte de alimentação.”

Ele já pensa nas novas espécies que poderiam habitar o presídio. “Catetos e pacas são rentáveis comercialmente. Além disso, temos os primatas, em especial os macacos-prego. Uma outra possibilidade é a implantação de viveiros, que serviriam como uma terapia ocupacional para os presos.”

Para Lima, as duas partes saem ganhando. “Os detentos têm necessidades afetivas e o projeto vem de encontro ao que pensamos, que é aproximar os animais das pessoas. Não há quem não se sensibilize com eles.”

Adaptação

A chefe do escritório regional do Ibama em Bauru, Lélia Lourenço Pinto, diz que a adaptação dos animais silvestres ao presídio tem sido boa. “Eles já estão bem calmos e dóceis.”

Ela explica que não seria possível, porém, colocar outra família de capivaras no local. “Elas tem um modo de vida que chamamos de gregário. Se colocarmos mais de um grupo juntos, vão brigar entre si. A saída é fazer uma divisão da área ou construir outra ao lado. Já com as emas, a convivência é tranqüila.”

Pinto lembra também que a chegada de novos animais silvestres dependeria de doações. “As capivaras que estão aqui vieram da lagoa do Taquaral, em Campinas e as Emas foram enviadas pelo parque ecológico de São Carlos.”

____________________

Semi-aberto tem regras

Iaras - Não é todo preso que consegue o benefício de ser transferido para o regime semi-aberto.

O diretor do Centro de Reabilitação do Presídio de Iaras, Mauro Henrique Branco, explica os requisitos. “Ele precisa já ter cumprido um sexto da pena. Depois, passa por um amplo processo de avaliação, chamado expediente de semi-aberto, que é feito por uma equipe técnica. Quando tudo isso estiver concluído, o pedido é encaminhado para o Juiz, que pode aceitá-lo ou não.”

Ele conta que o preso passa a viver na Ala de Progressão e tem direito a cinco saídas durante o ano para visitar a família. “Eles deixam o presídio em datas como o Natal e o Dia dos Pais e passam em média cinco dias fora. Nas últimas quatro saídas, todos se reapresentaram normalmente.”

Para Branco, que também é psicólogo, o trabalho dos detentos no criadouro acabará trazendo outros benefícios para eles. “Se conseguirmos realmente transformá-lo em algo comercial, poderemos oferecer uma remuneração aos sentenciados, um dinheiro para que eles comprem coisas do dia-a-dia ou para pagar as passagens quando forem visitar as famílias.”