08 de julho de 2026
Geral

Mortes levam Fórum a restringir acesso

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O assassinato de dois juízes - o de Presidente Prudente e o de Vila Velha, no Espírito Santo - mudou a rotina do Fórum de Bauru. O prédio está sendo cercado com alambrado e o acesso de pessoas está limitado àquelas que vão participar de audiência como réus ou testemunhas. A identificação é obrigatória na entrada e os parentes e amigos de presos não entram mais no órgão público, exceto aqueles que serão ouvidos.

O rigor no acesso ao Fórum de Bauru é uma reivindicação antiga de alguns magistrados e que só agora está sendo atendida pelo Judiciário. Um deles, que preferiu não se identificar, lembra que muitas famílias que não vão à cadeia aproveitavam para ver o preso no dia da audiência no Fórum. “O dia da audiência parecia uma festa. Vinham todos os familiares, amigos, amásia e ficavam nos corredores. As testemunhas contrárias ficavam constrangidas”, conta.

Ele considerava a segurança do prédio muito vulnerável. “Não tínhamos noção de quem estava dentro do Fórum. O número de policiais era muito pequeno. Foi preciso acontecer a morte de dois juízes para que o Judiciário tomasse providência”, frisa.

O diretor do Fórum de Bauru, juiz Jaime Ferreira Menino, explica que a segurança foi reforçada por policiais militares. “Há tempos estamos solicitando um reforço. A segurança não é só para os juízes e promotores, mas para todos aqueles que freqüentam o Fórum”, afirma.

Ele acredita que algumas medidas poderão minimizar o problema. “O acesso está limitado. Todas as varas passam a pauta de audiência para a portaria. As pessoas que não tiverem seus nomes incluídos como réus ou testemunhas não têm acesso, exceto os profissionais que trabalham no Fórum”, frisa.

Menino confirma que o acesso de familiares e amigos de presos ao órgão está proibido. “Eles têm que visitar o preso na cadeia. Aqui ocorrem as audiências e só os envolvidos é que devem ter acesso”, conta. Ele diz que a entrada de pessoas nos gabinetes dos juízes também foi limitado. “Eles se identificam e justificam o que pretendem. Se o juiz achar conveniente, atende. Caso contrário, não. O mesmo acontece com os promotores, sejam da área cível ou criminal”, conta.

Segundo a presidente da Associação dos Funcionários do Fórum de Bauru, Luciana Dias Duarte, a triagem foi um procedimento adotado para evitar o trânsito de pessoas estranhas ao trabalho. “Pela triagem sabemos onde essas pessoas vão e o que pretendem no interior do Fórum. A apresentação do RG é obrigatória”, diz.

Ela considera a medida como necessária para a segurança dos funcionários e usuários. “O reforço policial na área interna também é importante”, frisa.

Segurança máxima

Sem prejudicar a estética do prédio do Fórum, serão feitas modificações para aumentar a segurança do local, avisa Menino. “O prédio vai ser cercado por alambrado. A parte que permite a visualização do estacionamento será murada para dificultar a ação dos olheiros”.

O portão do estacionamento será automatizado e o acesso será permitido somente para os funcionários. “O trânsito de pessoas a pé pelo local não será permitido. Atualmente, o estacionamento não é privativo”, afirma.

A entrada principal do Fórum também vai ganhar um portão. “E será fechado com cadeado nos horários em que não há atividade”, diz Menino. Para cada corredor, o juiz pediu a presença de pelo menos um policial. “Além daqueles que diariamente transitam por aqui trazendo presos ou sendo ouvidos. Esses estão sendo orientados a agir como observadores e a comunicar qualquer movimentação suspeita”, diz.

Uma viatura da PM que faz patrulhamento na Bela Vista está usando a frente do Fórum como ponto de apoio. “Ela fica parada aqui por um tempo. Faz rondas alternadas visando inibir alguma ação”, afirma.

Cautela

Os dois episódios envolvendo juízes, além dos casos de ameaças, colocaram o Judiciário em estado de cautela, explica o juíz Jaime Ferreira Menino. “Estamos mais cautelosos. Não há como fazer escolta para todos. Só vamos requisitar esse item caso tenha uma ameaça concreta, como a que ocorreu no ano passado em Bauru”, conta.

Segundo ele, tanto os promotores quanto os juízes fizeram mudanças em suas vidas pessoais. “Estamos mais cautelosos. A contratação de pessoas para prestação de serviços, por exemplo, é cuidadosa. Só contratamos gente de nosso conhecimento”, diz.

A rotina diária e pessoal dos magistrados foi alterada, admite o juiz. “Eu, por exemplo, deixei de fazer caminhada no bairro em que moro. A atividade me dava muito prazer, mas considerei um risco desnecessário”, diz ele.

O trajeto para o Fórum não é repetido. “Nós tentamos mudar diariamente, apesar do trajeto afunilar aqui na Bela Vista. Alguns juízes deixaram de freqüentar academias de ginástica e locais públicos de grande aglomeração. Os filhos e parentes dos funcionários estão orientados a agir com cuidado”, afirma.

A proibição da entrada de familiares de presos ao Fórum fez crescer a aglomeração do lado de fora. Mães, avós, amásias e irmãos não desistiram de ver os presos e de entregar cartas e outros objetos. Na sexta-feira, os parentes e amigos de presos estavam do lado de fora aguardando a chegado deles para depoimento.