09 de julho de 2026
Articulistas

O imprevisível da guerra


| Tempo de leitura: 3 min

Seria útil fazer uma avaliação do modo como provavelmente a guerra se desenvolverá ou estenderá. Uma mudança de regime no Iraque não será possível sem a ocupação e o controle de Bagdá pelas forças da coalizão. Ocupar a capital iraquiana implica uma entrada à força nessa antiga cidade. Isso requer que as forças da coalizão mantenham posições dentro da cidade através da ocupação de uma série de lugares-chave.

Saddam Hussein não tem força militar para deter a invasão. Porém, pode disputar (com alguma possibilidade de êxito) com as tropas anglo-norte-americanas a ocupação de Bagdá e outras cidades importantes. Portanto, não se deveria ficar impressionado com a velocidade dos avanços dos tanques e demais blindados de combate rumo à capital do Iraque. As forças da coalizão podem chegar aos subúrbios de Bagdá e de outras cidades importantes nos próximos dias.

A questão é o quanto controlarão efetiva e suficientemente essas cidades de modo a poder conseguir uma mudança de regime. A melhor opção à disposição de Saddam é a de aumentar os custos das forças aliadas em sua tentativa de ocupar Bagdá; podendo assim adiar a queda de Bagdá e esperar poder causar baixas às forças da coalizão em batalhas urbanas. O pior contexto possível para a coalizão seria que suas forças estivessem em contato com as principais cidades do Iraque, mas sem estar em condições de ocupá-las efetivamente e governá-las.

Nos países asiáticos, o impacto de uma guerra que fizeram todo o possível para evitar será, provavelmente, variado. Em países com maioria islâmica (que vai do Paquistão à Ásia Central e da Indonésia às Filipinas) a guerra coloca os governos sob uma imensa pressão interna. Na Índia, com a segunda maior população islâmica do mundo, o governo vem assumindo uma posição neutra e eqüitativa. Essa posição se tornará cada vez mais difícil de sustentar se a guerra durar mais duas ou três semanas e se provocar baixas em grande escala entre civis iraquianos. A ambigüidade indiana pode causar efeitos no Estado de Jammu e Cachemira, onde o governo trabalha duramente para conseguir o apoio da população, a fim de acabar com as atividades terroristas apoiadas pelo Paquistão.

Esse país está fortemente implicado e sob considerável pressão por parte de Washington para que coopere na guerra contra a organização terrorista Al Qaeda. As operações desse grupo têm e continuam tendo refúgio no Paquistão. Há insistentes rumores a respeito de Osama bin Laden estar na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. O Paquistão apenas escapou das conseqüências de votar contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha no Conselho de Segurança das Nações Unidas, quando esses dois países retiraram a chamada Segunda Resolução.

Entretanto, para a Índia seus interesses estratégicos têm uma considerável convergência com os Estados Unidos, enquanto seu desejo de construir e manter uma profunda e durável relação com esse país continua sendo forte. A Índia também vê os Estados Unidos como um fator fundamental de influência estratégia e de efeito para contrabalançar suas disputas com Paquistão e China. Portanto, é provável que prevaleça a reticência de Nova Délhi para declarar-se fortemente contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos.

Porém, há uma eventualidade que pode perturbar todos os cálculos: a possibilidade de uma revolta interna em Bagdá pela qual Saddam Hussein seja substituído ou tirado de cena de forma violenta. No entanto, ninguém sabe se uma mudança de regime no Iraque serviria para alcançar a estabilidade no Oriente Médio. Todos esperamos e vigiamos. (O autor, V. R. Raghavan, é ex-chefe do Estado Maior do Exército da Índia)