09 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Convite à intuição

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 2 min

Não é preciso entender o que é naïf e muito menos saber o que é arte para conferir a mostra itinerante do acervo de arte naïf do Sesc, que a unidade de Bauru abre para visitação hoje. Basta conservar aquela ingenuidade que muitas vezes nos envolve quando nos deparamos com um assunto impactante - a guerra é um exemplo - ou um tema complexo e rico - caso do apocalipse.

A essa visão ingênua recomenda-se rememorar lembranças, geralmente de infância, a respeito da vida coletiva, dos mitos e ‘causos’ típicos da cena da roça e bem comuns em conversas de avós que gostam de ver os olhos dos netos brilharem.

O método é intuitivo, como também o é a arte naïf apresentada em muitas das obras que compõem o acervo do Sesc. Esse é o caso dos quadros de Ranchinho, nascido Sebastião Theodoro Paulino da Silva em Oscar Bressane e que ficou muito conhecido em Assis por causa das pinturas retratando as cenas da cidade, como a igreja matriz, o trem chegando à estação da Sorocabana ou as galinhas de inúmeras sítios da zona rural.

Antes da década de 70, Ranchinho era apenas alvo de ‘causos’ e piadas por conta da sua deficiência mental, mas deixou de ser apontado como uma pessoa ‘diferente’ quando José Nazareno Mimessi, descobridor e incentivador da arte primitiva, o motivou a continuar pintando e levou suas obras para grandes centros.

Por conta de seu talento, definido como “extraordinário”, Ranchinho, que morreu esse ano, pode ter suas pinturas apreciadas em várias mostras, caso do Sesc.

Ver essa exposição, então, é conferir Ranchinho e mais outros 29 artistas não menos extraordinários, mais contundentes quando o que está em foco é retratar a vida coletiva.

Porque as obras deles trazem as emoções em estado bruto, seja por serem demasiadamente românticas, que nos aproximam do céu, da fauna e da flora, seja por não abdicarem na raiva que nasce naturalmente quando nos defrontamos com o desprezo à vida. A arte naïf é assim: emoção à flor da pele. Aceite o convite.

Jornalista, é ombudsman do JC