11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Gatilho salarial pode disparar inflação, dizem economistas

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 3 min

O pedido de retorno do gatilho salarial feito pelo Sindicato dos Metalúrgicos de três cidades paulistas está sendo avaliado por economistas e entidades como um despropósito. Entre os reflexos que poderiam ser causados por uma suposta volta do reajuste automático de salários são apontados a perda da estabilidade macroeconômica, aumento descontrolado da inflação e reajustes de preços ao consumidor.

O economista e consultor empresarial Carlos Roberto Sette afirma que o gatilho acaba resultando em inflação inercial. Isso significa que, para que os salários possam ser reajustados automaticamente de acordo com a variação dos índices de inflação, essa alta também tem que ser repassada ao preço final dos produtos.

O pedido do gatilho faz parte da pauta da campanha salarial dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Limeira e Campinas, que são filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Em Bauru, o coordenador da subsede da CUT, Paulo Vieira Lima, está classificando o pedido como “uma grande irresponsabilidade”.

“Com o gatilho, todas as empresas do setor metalúrgico teriam que elevar seus preços. Isso poderia gerar dois cenários. Um deles é o de que as vendas cairiam e, conseqüentemente, isso poderia resultar em demissões”, avalia Carlos Sette.

Custos

O outro reflexo prático, apontado pelo economista como o menos provável, é o de que se as empresas conseguissem reduzir custos em outras áreas para poder estabelecer o gatilho, não precisariam aumentar o valor venal de seus produtos.

“O grande problema dessa possibilidade é que, infelizmente, são poucos empresários que possuem uma consciência social. Geralmente, quando as empresas conseguem reduzir custos em um setor não concordam em dar aumento de salário, e nem em diminuir preços”, observa.

O principal ponto negativo, segundo Sette, é que o repasse de custos aos produtos inflaciona o mercado, situação que atinge toda a população. “Quando existia o gatilho no Brasil, a inflação era muito alta. A experiência do País com isso já mostrou que o gatilho não dá certo”, afirma Sette.

O economista Fernando José Martha de Pinho diz que não vê a mínima possibilidade de se adotar a prática do gatilho salarial. “Isso significaria destruir toda a estabilidade macroeconômica conquistada nos últimos anos. Seria uma volta ao passado e um fator de realimentação inflacionária que funcionaria como uma bomba em termos de reajustes de preços”, avalia.

Para ele, a maioria dos empresários, principalmente os pequenos e médios, não concordaria com a volta do gatilho em função do quadro recessivo da economia.

“Não há margem na estrutura de custos das empresas para que elas consigam arcar com um repasse salarial de nível elevado. Os repasses nos preços já não estão sendo feitos em função da renda achatada da população. O gatilho pode resultar em demissões nas empresas”, observa Pinho.

Paulo Vieira Lima, coordenador da subsede da CUT e diretamente ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos de Bauru, afirma que a busca é pelo fim da inflação, e não pelo gatilho salarial. “Acho esse pedido dos sindicatos daquelas três cidades uma grande irresponsabilidade. Numa hipotética adoção do gatilho, os trabalhadores da categoria e toda a população seriam prejudicados pelos reflexos econômicos negativos”, opina Lima.

____________________

Reajustes

O diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Luiz Miranda Simonelli, diz que um dos primeiros reflexos de uma eventual instalação de gatilho salarial seria o estímulo às empresas para promover reajustes de preços.

“A inflação é retroestimulada. O ideal é que se promova o aumento do poder aquisitivo da população sem elevar a massa salarial. No caso do gatilho, vincular os salários ao índice de inflação significa estimular o crescimento descontrolado dela (inflação)”, avalia.

Na opinião dele, ocorrer o reajuste automático dos salários seria “politicamente correto”, já que se estaria recompondo as perdas. “Mas a médio e longo prazos, instalar o gatilho seria admitir a volta de um processo inflacionário pelo qual toda a população iria pagar”, acrescenta Simonelli.