08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Devoção no mundo da pesca

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Por questões de sobrevivência, o homem aprendeu a pescar. E pescando ele descobriu que além de peixes, a atividade dava prazer. Em suas aventuras à procura de alimento, sofisticou suas armas de caça. Usou lança, rede, vara, linha e anzol. Paralelas à pesca, seguem as histórias de pescadores, recheadas de mitos e superstições.

O respeito pelas águas sempre foi um lema dos pescadores, que descobrem na leitura do céu o resultado do dia de pesca. Nessas andanças de histórias, boatos, lendas e milagres, o peixe também marca as histórias bíblicas.

Quem não se recorda do milagre efetuado por Jesus na multiplicação dos peixes? E quando ele escolheu como apóstolo, Pedro, um pescador? Pedro deixou de ser pescador de peixes para ser pescador de homens, como dizem os religiosos.

Agora, não é preciso ser devoto para ser pescador, mas muitos pescadores são devotos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, popularmente conhecida como a padroeira do Brasil.

Devoção que traz histórias de fartura na pescaria, mas principalmente de proteção nas águas dos rios e mares. Wagner Aparecido Belarmelindo, 37 anos, é pescador profissional e não abandona a sua imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Ele conta que o dourado apresenta uma cruz na testa, em sinal de religiosidade. Alguns pescadores retiram sob a língua do peixe uma imagem da santa, que carregam em todas as pescarias.

Para o pai, João Delarmelindo, a devoção vai além das pescarias. “Ela está sempre no meu coração, não para encher a rede de peixes, mas sim como proteção no meu dia-a-dia. Carrego ela sempre comigo”, conta o pescador.

João Pedroso da Silva de 61 anos e há 15 anos freqüenta as águas do rio Tietê em suas pescarias. Para ele, todo pescador deve contar com a proteção da padroeira do Brasil. “Nossa Senhora Aparecida protege os pescadores nas aflições”, lembra.

Padre e pescador

“A pescaria é uma terapia para se adquirir paciência”, revela o padre Sírio José Motter, 65 anos, pescador desde criança. O exercício do sacerdócio também exige paciência. Como na pesca, é preciso conhecer o rio, saber a hora certa de lançar a rede.

O padre, em seus 37 anos de estrada, já passou por Minas Gerais e Santa Catarina, e desde 1999 encontra-se em Bauru, na paróquia de Nossa Senhora Aparecida.

Dividindo o trabalho sacerdotal com o amor pela pesca, Motter reserva um dia da semana para se distanciar de tudo, pescar e refletir em contato com a natureza.

Dos peixes preferidos, Motter lembra das pescarias de cascudo na mão, durante a infância, e também de suas aventuras na Amazônia, onde esteve visitando parentes e pescando. “É um lugar diferente. Conheci lá uma isca, corozinho. Um bichinho que vive dentro de um coco. Você abre a fruta e dentro encontra quatro corozinhos. É uma isca viva de primeira”, ensina o padre.

Abençoado por seu padroeiro São José, também tem fé em Nossa Senhora da Conceição Aparecida, que muito abençoa as pescarias.

A imagem da santa que foi encontrada por pescadores é a mais importante para os pescadores. Os homens de fé já se livraram de muitas enrascadas por esses rios. São motores que voltam a funcionar, chuva que pára de cair e peixes que enchem as redes.

A fé, removedora de montanhas, ainda traz boas lembranças àqueles que a tem. E aqueles que ainda não têm a que se apegar, contam histórias e, às vezes, caem em armadilhas montadas pelo acaso. E assim nascem novas aventuras e casos de pescaria, às vezes com peixes, outras nem tanto. Mas sempre com muita história para contar.

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História da Imagem

A história de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é de 1717, quando chegou a notícia de que o conde de Assumar, D. Pedro de Almeida e Portugal, governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, iria passar pela Vila de Guaratinguetá, a caminho de Vila Rica, hoje cidade de Ouro Preto - MG.

Convocado pela Câmara de Guaratinguetá, os pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves saíram à procura de peixes no rio Paraíba. Eles desceram o rio e nada conseguiram. Depois de muitas tentativas sem sucesso, chegaram ao Porto Itaguaçu.

João Alves lançou a rede nas águas e apanhou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição sem a cabeça. Lançou novamente a rede e apanhou a cabeça da mesma imagem. Daí em diante, os peixes chegaram em abundância para os três humildes pescadores.

Durante 15 anos seguidos, a imagem ficou com a família de Felipe Pedroso, que a levou para casa, onde as pessoas da vizinhança se reuniam para rezar. A devoção foi crescendo no meio do povo. A fama dos poderes extraordinários de Nossa Senhora foi se espalhando pelas regiões do Brasil.

Vários templos foram construídos para abrigar a imagem. O primeiro oratório foi feito pela família. Depois, em 1734, construiu-se uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros, em Guaratinguetá, que foi aberta ao público em 1745. Em 1834 iniciou-se a construção de uma igreja maior (atual Basílica Velha).

Em 17 de dezembro de 1928, a vila que se formara ao redor da igreja no alto do Morro dos Coqueiros tornou-se Município. E, em 1929, Nossa Senhora foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial, por determinação do Papa Pio XI. E no ano de 1980, ainda em construção, a basílica nova foi consagrada pelo Papa João Paulo II e recebeu o título de Basílica Menor.

Em 1984, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declarou oficialmente a Basílica de Aparecida: Santuário Nacional; “maior Santuário Mariano do mundo”. (Fonte:www.santuarionacional.com.br)