Bagdá - Forças militares dos EUA invadiram ontem o Aeroporto Internacional Saddam Hussein, em Bagdá, localizado na região sudoeste, a 20 quilômetros do centro. A investida marca a maior aproximação das forças invasoras. Havia relatos ontem de tropas a 10 quilômetros da capital.
O general Richard Myers, chefe do Estado-Maior norte-americano, admitiu a possibilidade de apenas isolar Bagdá e esperar que o regime de Saddam Hussein perca completamente o controle sobre o resto do país, em vez de travar uma “batalha final” pela cidade, que muitos antecipam que será sangrenta.
“Quando você chegar ao ponto em que Bagdá esteja completamente isolada, que situação você terá no país? Você tem um país que Bagdá não controla mais e no qual qualquer coisa que aconteça dentro de Bagdá é quase irrelevante comparado com o que acontece no resto do país”, afirmou, numa entrevista coletiva.
Nesse caso, disse Mayers, em questão de tempo Saddam não teria mais condições de se comunicar com as forças militares, que controlam serviços como água e eletricidade. De qualquer forma, a eventual tomada do aeroporto representa um ponto-chave na ofensiva. Maurice Goins, comandante da 3.ª Divisão de Infantaria dos EUA, disse a agências que cerca de 1.000 soldados já estariam no interior e nas imediações do aeroporto.
No que teria sido a preparação para o ataque, os norte- americanos atingiram com artilharia e foguetes, além de bombas lançadas por aviões, supostos alvos na vila de Furat, perto do aeroporto.
O Iraque anunciou que pelo menos 83 pessoas, entre soldados e civis iraquianos, teriam morrido e outras 120 ficado feridas nos ataques na região. “Nossos soldados tomaram uma série de áreas e estão mais perto do centro da capital do Iraque do que muitos dos cidadãos americanos estão de seus escritórios’’, disse o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.
No início da tarde de ontem, o comando militar da coalizão havia anunciado que suas tropas estavam a cerca de 10 quilômetros do chamado portão sudeste de Bagdá e se preparavam para tomar o aeroporto. Minutos depois, o ministro da Informação iraquiano, Mohammed Al Sahaf, convocou uma entrevista para negar que tropas invasoras estivessem próximas à cidade - e do aeroporto. “Eles não estão nem a 100 milhas (160 quilômetros) de Bagdá. Não estão em lugar nenhum.”
Já o vice-premiê, Tariq Aziz, afirmou que Bagdá está bem defendida e que a guerra será enorme e custosa se os invasores tentarem entrar na capital. Autoridades iraquianas decidiram, segundo a rede britânica BBC, levar jornalistas ocidentais até o aeroporto para provar que os EUA estavam mentindo.
De acordo com a rede CNN, quando do início do ataque ao aeroporto, o ministro Al Sahaf exortou, pela televisão, os bagdalis para que fossem às ruas a fim de defender a capital contra a invasão. Al Sahaf também voltou a acusar os norte-americanos de estarem bombardeando de forma deliberada alvos civis. As tropas americanas atacaram uma Bagdá quase tomada pela escuridão.
Um blecaute atingiu a maioria dos distritos da cidade por volta das 20h (14h de Brasília). Membros de forças especiais fizeram ontem uma incursão ao palácio presidencial Thar Thar, uma das residências usadas por Saddam Hussein e seus filhos, a cerca de 90 quilômetros de Bagdá.
O porta-voz do comando militar, general Vincent Brooks, disse que nenhum dos líderes do regime foi capturado na incursão. Foram encontrados apenas documentos no local. A capital iraquiana sofreu um blecaute na noite de ontem, o primeiro desde o início da guerra, enquanto grandes explosões eram ouvidas no centro e no sul da cidade e balas de artilharia riscavam o céu perto do aeroporto.
As luzes se apagaram em Bagdá por motivo ainda desconhecido, por volta de 20h (14h em Brasília), aumentando a tensão dos 5 milhões de bagdalis, que já estão há duas semanas sob bombardeios. Uma pane prolongada no sistema elétrico da cidade pode levar ao colapso dos sistemas de água e esgoto, espalhando doenças numa época em que as temperaturas médias aumentam. Explosões sacudiram Bagdá durante 15 minutos antes de as luzes se apagarem.
O chefe do Estado-Maior americano, Richard Myers, disse que os EUA não alvejaram a rede elétrica de Bagdá. “Nós não atacamos”, garantiu. Fontes militares americanas chegaram a afirmar que o próprio governo iraquiano havia provocado o apagão, para atrapalhar o ataque dos EUA. Durante a Guerra do Golfo, em 1991, blecautes eram comuns em Bagdá. Apagando as luzes, Saddam tentava - sem sucesso - impedir os ataques dos Estados Unidos.
Enquanto Bagdá silenciava à noite, homens de uniforme montaram barreiras em ruas do bairro de Karada, com o objetivo de impedir um êxodo de civis. Um jornalista do diário americano “The New York Times” declarou à TV CNN que civis estavam deixando a cidade, com medo da batalha final pela capital - que se aproximou ontem, com o assédio ao aeroporto Saddam Hussein pelas forças norte-americanas.
Ainda segundo a CNN, alto-falantes podiam ser ouvidos à noite conclamando os bagdalis a defender o aeroporto atacado. No início da noite, enquanto a infantaria americana avançava rumo à periferia da cidade, um pronunciamento de Saddam, lido pelo ministro da Informação, Mohammed Said al Sahaf, exortava os iraquianos a “combatê-los (os invasores) com as suas mãos”.