10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Mortes obrigam árabes a protestar contra a guerra no Oriente Médio

Agência Folha
| Tempo de leitura: 3 min

Bagdá - O clima na região mudou. Da apatia que a dominava, a população árabe começa a protestar contra seus governantes e a pressioná-los a tomar uma posição mais firme contra os Estados Unidos. É o que, segundo especialistas em política internacional entrevistados, explica o pronunciamento do rei Abdullah, da Jordânia, que, após ter liberado seu espaço aéreo e dado apoio logístico aos norte-americanos, decidiu condenar a ação no Iraque.

Ele a definiu como uma “invasão’’ e chamou os civis iraquianos mortos no conflito de “mártires’’. “É um dos primeiros sinais de que o mundo árabe, após a guerra, terá uma nova ordem. E certamente não será tão favorável aos EUA’’, diz o cientista político Mustafa Hamarneh, professor da Universidade da Jordânia.

Para ele, se antes do conflito os árabes se mostravam “apáticos’’, agora passaram a expressar sua indignação com a postura de alguns de seus líderes. “Aqueles que são vistos como colaboradores dos EUA terão de se explicar. A resistência iraquiana está comovendo todo o povo árabe.’’

Emad Shahin, professor de relações internacionais da Universidade Americana do Cairo, também acha que o pronunciamento do rei Abdullah significa uma nova postura, mostra que “os líderes (árabes) começam a perceber qual é o clamor das ruas’’. E ele vai mais longe.

“Por mais que o governo de Saddam possa ser questionado, a sensação é que se trata de uma agressão contra todos os árabes, há uma identificação com o sofrimento dos civis, do cidadão comum. Como resultado, o antiamericanismo está crescendo e quem é aliado dos EUA (caso da Jordânia) deve alguma satisfação à sociedade.’’

Na segunda-feira, um grupo de 57 personalidades jordanianas, incluindo políticos, empresários e líderes religiosos, fizeram um manifesto pedindo para o rei condenar a ação norte-americana.

Na terça, outras 42 personalidades fizeram o mesmo. Eles diziam que as mortes de civis iraquianos exibidas na TV têm enfurecido os jordanianos e que, num futuro próximo, a estabilidade do país ficaria em risco se o governo não endurecesse o discurso, pois a indignação é geral. No Egito, Mohammed Ramadan, que lidera um grupo de dirigentes de organizações não-governamentais, organizou um abaixo-assinado a ser enviado a todos os governos de países árabes. Ele pede ações imediatas contra o ataque norte-americano e uma mudança de postura dos líderes simpáticos aos EUA.

No texto, Ramadan prevê um aumento no número de atentados terroristas contra cidadãos norte-americanos e britânicos nos próximos meses. “Terrorismo não se combate com terrorismo (como o egípcio define a ação norte-americana no Iraque). A violência que estamos vendo acontecer só vai gerar mais violência e estimular os grupos extremistas da região.’’

É a mesma teoria do presidente Mohammad Khatami, do Irã. Segundo ele, a invasão do Iraque será interpretada pelos terroristas como um “sinal verde’’ para atacar alvos americanos.

Ações de extremistas, portanto, devem crescer, opinou o presidente. Em entrevista para a imprensa iraniana, Khatami pediu ainda para os EUA acordarem e pararem imediatamente a guerra. “Quem joga bombas e mísseis provoca destruição e a ira das pessoas. Se a guerra não parar, suas conseqüências para o mundo e a região serão muito piores do que a tragédia que foi o Vietnã".