08 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Iraque ameaça EUA com 'martírio'

Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Bagdá - O Iraque ameaçou ontem lançar uma “ação não-convencional” contra as tropas americanas que ocuparam o aeroporto de Bagdá. A ameaça foi feita pelo ministro da Informação, Mohammed Said al Sahaf, numa entrevista coletiva na qual admitia, implicitamente, a perda do aeroporto.

“Executaremos uma ação-convencional contra eles, não necessariamente militar”, disse al Sahaf, informando que a ação seria na madrugada de hoje (pelo horário de Brasília).

Indagado sobre se o Iraque recorreria a armas de destruição em massa, Sahaf disse: “Não, nada disso. Mas conduziremos uma espécie de operação de martírio. Comandaremos essa operação de forma muito nova e criativa”. Por fim, o ministro decretou que se os norte-americanos (no aeroporto) “não se renderem, não creio que poderão sobreviver”.

Em uma gravação veiculada anteontem na TV iraquiana, Saddam Hussein pedia aos iraquianos para lutar com o que tiverem à mão. “Lutem contra eles com força, resistam a eles. Ó, povo de Bagdá, não permita nunca que invadam sua cidade”, disse.

No sábado passado, um porta-voz do governo iraquiano havia anunciado que mais de 4 mil árabes chegaram ao país e estariam prontos para “se martirizar” a fim de impedirem o avanço de tropas invasoras em direção a Bagdá.

O anúncio ocorrera justamente horas depois de um soldado iraquiano detonar uma bomba dentro de um táxi, matando a si e quatro soldados americanos em um posto de controle. O grupo palestino Jihad Islâmico também anunciara, no mesmo dia, o envio de homens-bomba para o Iraque.

O suposto temor de novos ataques suicidas fez com que americanos disparassem tiros de canhão contra uma caminhonete que não parou em uma barreira, em Najaf, no dia seguinte. Morreram sete mulheres e crianças. Horas antes da ameaça feita ontem por Al Sahaf, um segundo carro suicida explodiu no região oeste do país, matando três militares americanos.

O atentado, segundo a TV Al Jazeera, teria sido executado por duas mulheres. O governo iraquiano sempre negou a posse de armas químicas ou biológicas. A coalizão anglo-americana não encontrou provas de que sua existência em território iraquiano - exceto o que qualificam de “evidências”, como roupas contra ataques químicos.

A posse dessas armas foi o mote usado pelos EUA para a invasão. Membros do comando militar dos EUA, no Catar, disseram ontem que suas tropas encontraram em Latifiya, sudeste Bagdá, caixas com um “pó desconhecido”, outras de um líquido também não identificado e papéis que tratariam de armas químicas.

Horas mais tarde, foi anunciada a descoberta do mesmo tipo de material perto dali. Militares disseram à TV CNN que possivelmente o pó e o líquido não eram armas químicas, mas explosivos. De acordo com o jornal “New York Times”, depois de avançarem rumo a Bagdá sem encontrar forte resistência, os marines “estacionaram” na entrada da cidade.

Antecipados por bombardeios aéreos, teriam “destruído” outra divisão da Guarda Republicana, a Nida, e marines estariam a cerca de 16 quilômetros do centro da capital.

Bombardeios aéreos anglo-americanos aliados à ação de guerrilheiros curdos, conhecidos como peshmergas (“aqueles que enfrentam a morte”, em curdo), forçaram tropas iraquianas a abandonar posições no Norte do Iraque e a recuar em direção a Mosul, um dos centros de produção de petróleo no Norte do país.

Os curdos (adversários de Saddam) estão combatendo sob orientação de pequenos grupos de forças especiais anglo-americanas, que também têm “apontado” alvos iraquianos aos aviões da coalizão.

Há dois dias, as forças iraquianas já haviam abandonado a vila de Kalak, a cerca de 40 quilômetros de Mosul. Anteontem, recuaram mais alguns quilômetros. Entretanto, as duas principais cidades do Norte iraquiano, Mosul e Kirkuk, que contêm imensas reservas de petróleo e são objetivos estratégicos da coalizão, permanecem sob controle de Bagdá.

Ainda na frente norte, as forças americanas afirmaram ontem que já controlam a estrada que liga Bagdá a Tikrit, cidade natal do presidente iraquiano, 175 quilômetros a noroeste da capital.

Frente sul Forças britânicas disseram ter matado oito combatentes iraquianos numa batalha de rua na periferia de Basra, a principal cidade no Sul do país, cercada há quase duas semanas.

Segundo o capitão Jamens Moulton, dez tanques britânicos apoiados por blindados avançaram até 4,5 quilômetros do centro de Basra, enfrentando resistência de homens armados leais a Saddam. As forças britânicas evitaram, até o momento, entrar em confronto direto com a resistência iraquiana supostamente escondida na cidade, pois isso poderia resultar em muitas perdas entre a população civil.