09 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Bagdá: moradores aguardam batalha

Por Samia Nakhoul | Agência Reuters
| Tempo de leitura: 3 min

Bagdá - A população de Bagdá já sabe que a batalha final está próxima. Só não sabe como reagir. “É isso, a batalha final. Não temos outro jeito. Estamos encarando a realidade agora, estamos enfrentando o Exército mais poderoso do mundo. Que fazer? Aonde ir? Estamos perdidos”, disse Nour Khaled, 48 anos, mãe de dois filhos.

O medo e a incerteza são, talvez, o pior de toda essa situação. “Certamente vamos morrer. Quem pode escapar dessa guerra? Meu marido e eu rezamos a Deus para que, se tivermos de morrer, que seja juntos. Nosso maior temor é que nossos filhos morram e nós continuemos vivos”, disse Khaled.

Traumatizada, ela contou que na quinta-feira viu “a morte na frente dos nossos olhos” quando um míssil caiu perto da casa em que vive com a família, nos arredores de Bagdá.

Ela fugiu descalça, levando seus dois filhos. Mesmo que a imprensa estatal iraquiana não tenha noticiado o avanço das tropas anglo-americanas, agora a menos de 20 quilômetros da capital, a violência dos combates se encarregou de espalhar essa informação.

Jatos norte-americanos fizeram várias ondas de ataques contra posições da Guarda Republicana, a tropa de elite de Saddam Hussein, enquanto por terra soldados ocidentais ocupavam o aeroporto internacional da cidade.

Noite infernal

“Não posso falar. Não posso nem descrever o que aconteceu. Foi uma noite infernal. Houve bombardeios inclementes a noite inteira. Achamos que eles (os ocidentais) tinham entrado em Bagdá e ocupado toda a cidade”, contou uma mulher que vive perto do aeroporto e, a exemplo de seus vizinhos, se refugiou no centro.

“Foi horrível, não só para as crianças, mas também para nós, adultos”, relatou ela ao parar em uma das poucas padarias abertas na cidade ontem - dia sagrado para os muçulmanos. A população de Bagdá já não tem esperanças de que algo possa poupá-la da carnificina.

Após 13 anos de confrontação entre Saddam e a única superpotência do mundo, os moradores de Bagdá sabem que agora chegou o momento decisivo. A cidade vem sofrendo bombardeios constantes desde que a guerra começou, em 20 de março, mas os ataques das últimas horas assustaram os cinco milhões de moradores da capital.

“O bombardeio foi horrível. Foi o pior e mais poderoso até agora. Sentimos como se os norte-americanos fossem chegar à frente de nossas casas a qualquer momento”, afirmou Jamila Husamy, 45 anos, que também fugiu para o centro da cidade.

Cansado de sofrer

A estrada que liga o aeroporto a Bagdá ficou repleta de carros em alta velocidade, mas no centro as ruas estavam quase desertas. Os civis dizem que não há onde todos se esconderem - grande parte da população vive em barracos e não tem acesso aos abrigos subterrâneos antiaéreos.

Após mais de duas semanas sob fogo, a vida em Bagdá virou um pesadelo. Até as compras mais corriqueiras estão difíceis. Na noite de quinta-feira, a cidade ficou completamente sem energia, situação que permanece até a tarde de ontem em alguns bairros.

Também faltou água, mas o abastecimento já foi restabelecido. Nessa rotina, a maioria das pessoas quer mesmo é que a guerra acabe logo, seja qual for o resultado.

“Estamos cansados de esperar. Estamos cansados de sofrer. Queremos a salvação. Queremos que essa guerra acabe. Os ataques estão nos ferindo”, desabafou Zainab Hussein, 42 anos. “É como uma morte lenta. Estamos sendo torturados diariamente. Eu prefiro morrer de forma rápida a viver essa morte lenta”.