Washington - “Tirano do mal” ou aliado tático? Nos últimos 20 anos, Saddam Hussein já foi as duas coisas para os Estados Unidos, dependendo dos interesses que estivessem em jogo. Na década de 1980, quando um dos maiores inimigos da Casa Branca era o Irã do aiatolá Khomeini, então em guerra contra o Iraque, Washington cortejou e financiou Saddam por considerar que ele seria um escudo contra o expansionismo iraniano.
A certeza de que o Iraque estaria usando armas químicas e a suspeita de que Saddam estaria em busca de bombas atômicas não impediram o casamento de conveniências, que gerou bilhões de dólares em créditos comerciais e incentivos agrícolas para Bagdá.
Acadêmicos acham que a demonização de Saddam Hussein pelo governo Bush é parte de uma estratégia de informação contra aliados que se tornam adversários. Na opinião de Ted Carpenter, vice-presidente do Instituto Cato, de Washington, Saddam se prestou a esse papel quando invadiu o Kuwait, em 1990, mostrando-se como “um cliente que ficou ambicioso”.
A atual guerra é a primeira travada sob a nova doutrina militar dos EUA, criada após os atentados de 11 de setembro de 2001, segundo a qual os norte-americanos têm o direito de atacar preventivamente qualquer país ou grupo considerado uma ameaça.
No caso de Saddam, Bush o acusa de possuir armas de destruição em massa, que poderiam ser usadas contra vizinhos ou cair nas mãos da rede Al-Qaeda, acusada pelos atentados de 2001.
Causa nobre
Ainda na quinta-feira, em um discurso aos marines, Bush se referiu aos “sacrifícios de um chamamento elevado” (para a guerra) e disse que “derrotar o mal é a mais nobre das causas e a mais difícil das tarefas”. Mas nem sempre o Iraque foi tratado assim.
Em dezembro de 1983, por exemplo, o hoje secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, se reuniu com Saddam em Bagdá, em plena guerra contra o Irã, na qualidade de emissário da Casa Branca. Documentos recentemente revelados mostram que o Departamento de Estado sabia, já naquela época, que o Iraque usava armas químicas “quase diariamente” contra as forças iranianas.
Além disso, a CIA suspeitava que Saddam estivesse tentando construir uma bomba atômica. Rumsfeld foi filmado cumprimentando Saddam e, segundo um comunicado diplomático, o iraquiano teve “um evidente prazer” ao receber dele uma carta do então presidente Ronald Reagan.
“Nossa avaliação inicial é que o encontro representou um marco positivo no desenvolvimento das relações EUA-Iraque”, disse o comunicado. Menos de um ano depois daquele encontro, Washington e Bagdá restabeleceram as relações que haviam sido rompidas 17 anos antes.
Hoje, muitos críticos dizem que a aproximação daquela época ajudou Saddam, direta ou indiretamente, a manter seu programa de armas de destruição em massa. Até 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait, a ajuda econômica dos EUA ao Iraque continuava.
Em janeiro de 1990, George Bush, pai do atual presidente, usou o argumento dos interesses nacionais para derrubar uma decisão do Congresso contra a ajuda econômica ao Iraque. Os parlamentares queriam suspender a ajuda por causa da revelação de que Saddam usava armas químicas contra a minoria curda de seu país.
Em um relatório divulgado em abril daquele ano, a organização Middle East Watch acusava a Casa Branca de levar mais em conta o petróleo e as possibilidades comerciais do que a “natureza repressiva e violenta” do regime de Saddam.
Segundo Rumsfeld, seu encontro com Saddam foi realizado para garantir que o Iraque “não provocasse intrigas” no Oriente Médio depois da explosão de um caminhão-bomba que matou 241 militares dos EUA em Beirute. Ele disse que levantou a questão das armas químicas em conversa com Tareq Aziz, então chanceler iraquiano, e nega que os EUA tenham se enganado com Saddam.