O alemão Lothar Lorius é daquelas pessoas que tem histórias de sobra para contar. Não apenas por ter nascido em um país distante ou acumulado várias experiências. Quando o assunto são motocicletas antigas, ele entra praticamente no “túnel” do tempo ao falar de uma das maiores paixões de sua vida.
Não é exagero afirmar que ele passou boa parte dos seus 68 anos de idade, mais de 20 deles vividos em Bauru, próximo ou montado em máquinas de duas rodas. Lothar já teve o privilégio de trabalhar como mecânico na BMW e competir em pistas alemãs e brasileiras. Além disso, atualmente concentra esforços na reforma de uma Ducati, marca italiana famosa por suas esportivas, encontrada em um lixão da cidade.
Suas ligações com as motos começaram a se definir quando ainda morava na Alemanha, em Leipzig, sua terra natal. Estudando em um internato na então Alemanha Oriental, Lothar aprendeu o ofício de ferramenteiro. “Queria mesmo era ser mecânico de motocicletas, mas era obrigado pela escola a freqüentar aulas de capacitação profissional”, conta ele.
Mas Lothar não desistiu de seu desejo. Nas horas vagas do internato descobriu uma oficina de motos e passou a freqüentá-la. Em pouco tempo, tornou-se um “expert”. “Sabia tudo de motocicletas de todos os tipos e países”, afirma. Ele gostou tanto que não queria retornar à instituição, que o obrigou a concluir o curso.
Só que o destino se encarregou de tornar a ferramentaria útil. Aos 19 anos, Lothar conseguiu emprego na BMW Motos para atuar justamente na área que terminou na “marra” no internato. Após dois anos, o alemão mudou de ramo e de ocupação profissional: passou a trabalhar em uma fábrica de barbantes, que se tornaria mais tarde na “catapulta” para o Brasil.
Como a empresa utilizava matéria-prima brasileira, o sisal, para a produção dos fios, Lothar e mais quatro amigos transferiram-se para a Paraíba na espécie de “filial” aberta pela firma alemã, em fevereiro de 1961, no País. Não demorou e, um ano depois, o “kaiser” já era contratado pela Volkswagen para operar no setor de ferramentaria.
Entretanto, por não conseguir adaptar-se, alguns meses depois Lothar sai da Volks para empregar-se em uma fábrica de frisos de automóveis e, mais tarde, em uma loja de móveis, onde permaneceu por 16 anos.
Corridas e a Ducati
Como todo admirador fervoroso de motocicletas, a vontade de correr montado em uma delas não demorou a chegar para Lothar. Ainda na Alemanha, ele competiu a bordo de várias máquinas de 1954 até 1957, ano que ficou marcado para sempre em sua memória por uma quase tragédia. “Levei um tombo feio e fiquei 11 meses com o corpo inteiro engessado”, lembra ele.
Já no Brasil, o sangue para retornar às pistas começou a ferver em 1965, quando pisou pela primeira vez no autódromo de Interlagos. Nas competições brasileiras, que ele disputou até 1971, suas motos preferidas para as corridas eram as inglesas Ariel de 500 e 1000 cilindradas que ele mesmo preparava.
Classificando-se como tendo sido um piloto razoável, Lothar revela que cansou de “levar pau” das Ducatis durante as provas. “Além de naturalmente mais velozes, quem as guiava contava com toda estrutura da marca. Eu não tinha nada disso e muitas vezes as motos quebravam na metade das corridas”, afirma.
Talvez por isso, segundo o alemão, tenha se interessado tanto em reformar o modelo vermelho de 160 cilindradas que encontrou abandonado, no ano de 1984, em Bauru. “Ele estava inteiro e praticamente original, mas o motor não queria funcionar porque estava cheio de água”, relembra ele.
Aos poucos, Lothar foi reformando-a e alterando suas características. Entre outros itens, o propulsor atual é um 175 cilindradas e as rodas, em vez das antigas aro 16, são aro 18. Apesar disso, o alemão faz questão de guardar todos os equipamentos e acessórios originais retirados por ele para consertá-la, como o tanque de combustível.
Apesar disso, Lothar garante que a vende, mesmo sendo um de seus “xodós”. Ele conta que não faltaram pretendentes para comprá-la, que recusaram-se devido ao preço pedido, que ele não revela. “Nunca ninguém a valoriza”, protesta. “Agora, se aparecer um louco me desfaço dela”, brinca o alemão.