08 de julho de 2026
Geral

Obras não sabe consertar Rodrigues

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

A Secretaria Municipal de Obras de Bauru abriu licitação para contratar um diagnóstico de engenharia que aponte uma solução para os graves problemas no pavimento da avenida Rodrigues Alves. A contratação gera questionamentos sobre a demora na resolução do caso, o gasto adicional com a consultoria externa e coloca em xeque a capacidade da administração de resolver os problemas de infra-estrutura a partir de seu próprio quadro de engenheiros e técnicos.

O secretário Municipal de Obras, Antonio Carlos Duarte, discutiu o assunto com o JC e procurou justificar a terceirização do diagnóstico para mais um problema urbano da cidade. A exemplo do piso da avenida, a administração está contratando estudos externos - a custo considerável - para problemas como drenagem urbana, enchente, reestruturação do transporte coletivo e interdição da ponte Ayrton Senna.

O quadro torna oportuno discutir o papel da Secretaria de Obras em relação ao problema da avenida Rodrigues Alves e a possibilidade de buscar na própria pasta, ou nas universidades locais, parcerias com especialistas.

Jornal da Cidade - A secretaria está contratando o projeto ou o estudo para o problema da Rodrigues Alves? Antonio Carlos Duarte - O contratado vai fazer um diagnóstico da situação da Rodrigues Alves.

JC - Mas a secretaria já não tem este diagnóstico? Duarte - Não tem pelo seguinte. Isso depende de ensaios que nós não sabemos fazer. Tudo isso é em função da importância da avenida, porque não valeria para uma rua comum. Por exemplo, não sabemos se a base do asfalto está boa. É preciso parâmetro de engenharia para fazer um serviço bem feito. O asfalto tem três camadas e a capa de rolamento em cima. Embaixo dela, usualmente há uma camada de asfalto mais grosseira. Embaixo disso tem uma base, e nós chamamos a outra parte de subleito. A base pode ser de solo cimento, solo compactado ou de brita. Por termos um solo excelente para compactar em Bauru, existe a possibilidade de solo cimento porque já se tem a terra, que aqui é de graça.

JC - Mas a secretaria de Obras não tem nesse histórico condição técnica de apontar a situação da base do asfalto da Rodrigues? Duarte - Não tem mesmo. Na engenharia, a situação ideal é que a gente tenha controle do que é feito. Normalmente o pessoal se preocupa com o concreto na engenharia, concorda?

JC - Mas escolher o tipo de asfalto, de composição e de piso adequado para o local é importante? Duarte - Visto tudo isso, sim. Mas há uma distinção muito grande entre vias de tráfego normal e de tráfego pesado. Na Rodrigues Alves há uma característica particular. Tanto é assim que você vê que existe uma capa de asfalto totalmente deformada, que perdeu a estabilidade.

JC - Mas então, tudo o que foi feito na avenida foi paliativo? Duarte - Nós não queremos cometer erros agora. Não posso afirmar se foram cometidos erros.

JC - Mas os engenheiros da secretaria atuam na área há vários anos. Por que a pasta não conhece a solução para a avenida? Duarte - No ambiente público não existem só decisões técnicas; existem decisões políticas também. No fator técnico, o atual prefeito não tem interferido. Não temos condições de apontar a solução sem erros neste momento. Uma análise superficial da avenida indica que, em alguns lugares, temos a capa asfáltica que perdeu a estabilidade. É essa que escorrega para cima das guias e sarjetas. Com os tipos de fissura que vemos em cima da avenida, percebe-se que o asfalto já está comprometido. Em alguns lugares há indícios de que houve rompimento de base. E para tirar a dúvida do indício, eu preciso ter o estudo.

JC - E a secretaria não tem condições de apontar a solução? Duarte - Vou ser bem claro: não tem. Porque isso envolve equipamentos, envolve sondagens que a Secretaria de Obras não tem como fazer. Em alguns lugares há indícios de que até o que existe embaixo da base de asfalto está comprometido. Tem a capa de rolamento e outra capa que é chamada de salgado (binder). Embaixo disso tem a base e, embaixo da base, existe a sub-base ou subleito. Há indícios de que até o subleito está comprometido. E não tem o mesmo tipo de problema em todos os quarteirões.

JC - Então, as soluções do passado não poderiam ser homogêneas para a avenida? Duarte - Certo. Vou mais longe. Existe também um indicador de que a drenagem feita por guia e sarjeta infiltra água demais na base do asfalto. Nós fizemos um reparo em uma região e o indício era de água infiltrando, mas ninguém sabia onde. Achamos uma água que saía de um bar no meio da calçada. O ponto estava entupido. O assunto leva a uma complexidade de tratamento na Rodrigues Alves que foge à característica do nosso trabalho, que é basicamente operacional.

JC - E por que deixou-se a avenida chegar ao estado atual? Duarte - Posso responder pelos dois últimos anos. Você sabe que um asfalto começa a ficar comprometido quando aparece muita panela (grande buraco) no asfalto. A espessura vai mudando com o desgaste. Em panelinhas é possível ver essa espessura. O asfalto é um concreto no qual o aglomerante é um produto betuminoso, ao invés de ser cimento. Da mesma forma que no concreto comum, para se ter a característica que interessa na capa de asfalto existe um termo que se chama estabilidade da massa. A estabilidade é dada pela capacidade de agüentar o peso sem deformar do jeito que está lá.

JC - Na sua opinião, por que deformou o piso da avenida? Duarte - Porque há um indicador de que na dosagem do concreto asfáltico da avenida foi colocado mais produto asfáltico do que deveria. Ou seja, colocou o preto, que vem do petróleo, mais do que o necessário. Na avenida, vemos alguns trechos que têm o pavimento de concreto totalmente trincado, comprometido. Nossa proposta é não errar. Nós temos engenheiros, um pessoal bom. Mas não temos gente especializada nesse tipo de problema.

JC - Mas na Faculdade de Engenharia da Unesp não há nenhum especialista na área? Duarte - Existe. Tudo o que a universidade faz é através das fundações associadas a ela. Então, ela presta serviços como consultoria ou como trabalho de pesquisa. No caso da ponte Ayrton Senna, há um professor que dedicou sua vida acadêmica inteira para estudar problemas com fundações em solos tropicais. Eu o procurei para receber apoio.

JC - Mas uma universidade do porte da Unesp não seria parceira sem custo para o caso da avenida? Duarte - Eu tenho a impressão que não. Não cheguei a ver, mas com certeza não dá. Para fazer um diagnóstico como o da avenida Rodrigues Alves é preciso usar equipamentos e instrumentação que não existem aqui. Nós pedimos no diagnóstico uma coisa que se chama utilização da viga. Você vem com o caminhão com carga padrão parando a cada 20 metros, de acordo com a norma, e com um medidor de deformação da pista, que pode ser através de ultra-som. É uma técnica que só pode ser feita por quem trabalha com isso. Não é todo escritório e nem todo engenheiro que faz isso.

JC - A Unesp não tem condições de fazer esse diagnóstico? Duarte - Acredito que não. Não cheguei a ver. E se tiver, a Unesp entra na carta-convite e disputa. Não é trabalho de graça. A Unesp dá contrapartida através das fundações, que foram constituídas para fazer a extensão à comunidade. Na ponte, estão fazendo o serviço há um preço que não paga nem a gasolina para o trabalho.

JC - Mas está ficando muito comum a prefeitura contratar pessoas para apontar soluções para aquilo que é missão dela? Isso acontece com a ponte, com as duas modelagens dos coletivos, as bacias, o piscinão e com o piso da Rodrigues Alves. Duarte - A prefeitura não tem engenharia de projeto.

JC - Não detém o conhecimento ou o equipamento? Duarte - Pode deter o conhecimento, mas não detém a prática e a especialização porque não são coisas que se faz todo dia.

JC - Então, vai até a Unesp e convoca os estudiosos? Duarte - A Fundeb está livre para participar da licitação de diagnóstico para a avenida. A Unesp pode participar através da Fundeb. Ela não é impedida disso. Eu entendi seu raciocínio, mas contraponho com uma posição de engenheiro. Em engenharia tudo tem que ser feito com rigor, com o padrão correto.

JC - Tudo bem, o caso da ponte esta aí para se discutir isso. Duarte - Mas existe uma situação que é a de especialização de importância superior. É o caso da Rodrigues Alves. Eu vejo desse jeito. Eu seria leviano se chegasse lá e decidisse fazer uma base de solo cimento, com 10% de cimento, 30% de espessura, compactação etc. Não é assim.

JC - Então, alguém foi leviano nas outras intervenções na avenida? Duarte - Vamos compactar o terreno na Rodrigues Alves e há duas formas para agir. Uma é passar o rolo compactador cinco vezes e está pronto. A outra é contratar um laboratório de engenharia que possa medir o grau de compactação do solo para atestarz se chegou a 100% ou não. Você vai começar a ver esse tipo de procedimento na Secretaria de Obras. Esse aumento de rigor no padrão de engenharia custa dinheiro e dá retorno com um serviço melhor. É isso que nós estamos procurando. Vamos ter o diagnóstico, toda a sondagem com as características de engenharia do solo, vamos identificar os problemas e apontar a solução. Temos, inclusive, os procedimentos que devem ser seguidos. Estou sendo franco. Não temos condições de apontar a solução.

JC - Para ser franco, a impressão é de que o senhor enfrenta resistência dentro da pasta. Isso ocorre? Duarte - Se você for ver as equipes de trabalho da Secretaria de Obras, dá dó do pessoal. A secretaria é pequena para o tamanho da cidade. Isso eu não tenho que esconder. Porém, prefiro que a secretaria não seja tão grande, mas que contrate bem. Acho que a prefeitura deveria ter - e tem - equipes boas de manutenção, e não de construção. Se bem que devemos manter alguma parte de construção. É utópico querer que a prefeitura execute tudo. Nós não conseguimos desenvolver especialização para tudo o que a prefeitura precisa.

JC - Mas colocar caco de telha em buraco não é solução. Ficou visível que a prefeitura começou a reformar a usina de asfalto sem ter massa asfáltica e no período das chuvas. Duarte - Mas está fazendo recape. Toda estrutura tem problema operacional. Mas nós estamos agindo. Pedimos a compra de 1,5 mil toneladas e o DAE também teve o pedido dele. Ocorreu problema na licitação. A usina paralisou por 15 dias.